|
ALMAS
CONFUSAS – QUE SENTIDO TÊM AS “PSICOSES”?
Franz Ruppert
Professor de Psicologia, Universidade Católica de Munique
(Alemanha)
1. O que são “psicoses”?
2. Conceitos básicos de uma
Psicotraumatologia Sistémica
3. As causas psíquicas das
confusões psicóticas
4. Bibliografia
1. O que são “psicoses”?
Fenómeno e diagnóstico – No contexto profissional da
psiquiatria, as “psicoses” (literalmente traduzido por doenças
da psique) são diagnosticados a partir dos seguintes sintomas:
percepções e pensamentos delirantes, nível de agitação elevado
ou de apatia total, perda da noção da realidade.
Os diagnósticos psiquiátricos relacionados com sintomas
psicóticos são:
— Esquizofrenia (paranóica, hebefrénica ou desorganizada,
catatónica, simples)
— Perturbações delirantes (contínuas, agudas, passageiras)
— Perturbações esquizo-afectivas (maníaco-depressivas) (ver Sass,
Wittchen, Zaudig (1998); Dilling, Mombour, Schmidt (1993).
Registando as várias formas de manifestação numa única categoria
de diagnóstico os psiquiatras falam também de “psicoses da área
esquizofrénica”. (Baeuml, 1994).
Apresento o caso de uma paciente com todos os sintomas de um
delírio de perseguição:
“Há um ano que vivo com ataques de pânico. Começaram quando
alguém me falou das suas alucinações: ele via, de vez em quando,
mulheres com um machado na cabeça. Vi a loucura nos seus olhos e
não consegui libertar-me mais dessa imagem. Com o tempo eu
própria comecei a ter cada vez mais percepções delirantes.
Assim, numa festa, de um momento para o outro senti que estava a
ser controlada por alguns dos convidados, e senti que a minha
irmã e o meu irmão faziam também parte de uma conspiração contra
mim. Quando estava na cidade vi as pessoas irem de um lado para
o outro e pensava que eram sempre as mesmas e que me queriam
indicar algo importante através das suas roupas sempre
diferentes. Senti-me súbita e magicamente atraída por uma mala
da minha mãe na nossa casa. Tinha muita importância para mim sem
que eu pudesse dizer porquê. (Mulher de 30 anos com o
diagnóstico de esquizofrenia paranóica).
Também as formas muito graves das chamadas depressões endógenas,
de medo e de pânico, de ideias obsessivas fortes, de anorexia
nervosa e formas extremas de dissociação da personalidade
(personalidade múltipla) têm uma qualidade psicótica, na medida
em que os sentimentos e as acções dessas pessoas não estão
adequadamente relacionados com a sua realidade exterior. Se p.
ex. Uma mulher anoréctica se acha demasiado gorda apesar de o
seu peso corporal se situar nos 40 kg podemos considerar essa
sua avaliação como uma percepção delirante, desfocada dela
própria.
Um enigma não resolvido – As “psicoses” continuam a representar
um enigma, também para as ciências actuais. No fundo, não se
passa da especulação, e nada se sabe ao certo. A medicina
psiquiátrica pressupõe perturbações do metabolismo como causa
das psicoses. Estas perturbações do metabolismo, derivadas de
alterações genéticas levariam a uma maior “vulnerabilidade” e,
assim, a uma “maior sensibilidade dos pacientes em relação ao
stress (Baeuml, 1994). Esta teoria, no entanto, não é correcta.
Por um lado não é claro se essas alterações no metabolismo dos
neurotransmissores – alterações que não se encontram em todos os
pacientes – são a origem ou a consequência de uma psicose. Por
outro lado esses genes não estão devidamente sinalizados nem a
tipificação das suas anomalias. Finalmente, toda a argumentação
sobre o stress e a vulnerabilidade é um raciocínio circular:
quem se tornou psicótico seria anteriormente vulnerável e quem
não se torna psicótico aguenta melhor o stress.
A teoria psiquiátrica padrão para a explicação das psicoses é um
bom exemplo de uma ideologia fechada em si própria. Serve, isso
sim, para manter o status quo do tratamento essencialmente
médico dos doentes psicóticos. Em termos científicos existe um
impasse. Na ausência de uma teoria sensata acerca das psicoses o
tratamento psiquiátrico usual não pode passar de uma tentativa
de reprimir os sintomas através de medicamentos, os chamados
psicofármacos (Finzen, 2001). Este tratamento baseia-se no
princípio de tentativa e erro (trial and error) e na ideia de
compensar, ao menos parcialmente, os chamados efeitos
secundários dos medicamentos dados no início do tratamento.
2. Conceitos básicos de uma
Psicotraumatologia Sistémica
O sentido dos sintomas – As psicoses são, na minha terminologia,
expressões de formas graves de uma perturbação psíquica. No meu
livro Verwirrte Seelen (Almas Confusas) apresentei pela primeira
vez mais em pormenor o conceito básico de uma
“Psicotraumatologia Sistémica” (Ruppert, 2002). Ao contrário da
doutrina psiquiátrica, entendo que os sintomas psicóticos também
têm uma interpretação a nível psicológico. Ou seja, são sintomas
que se referem a um contexto psíquico real do passado mas esse
contexto não tem evidência no presente. Nesta medida as psicoses
são formas ajustadas de expressão psíquica que nos remetem para
a questão: em que contexto situacional um estado psicológico
alterado surge como a única reacção possível da psique humana a
uma experiência de vida?
Ilse Kutschera e Christine Schaeffler partilham esta perspectiva
de interpretar sintomas de doenças como reacções ajustadas a
situações de exigência excessiva, na história de vida da pessoa:
“Estou convencida que se pode encontrar um sentido para cada
sintoma e cada doença. Este sentido, no entanto, não é válido
para o geral, mas nasce no contexto da situação do paciente e
das suas relações no sistema.” (Kutschera, Schaeffler, 2002,
p.22). Úrsula Franke exprime-se de maneira parecida: “Podemos
considerar os sintomas como padrões precoces e marcantes de
reacção a situações difíceis e temos só que perceber em que
situação o sintoma estava apropriado ou teria sido apropriado.
Esta situação pode pertencer ao próprio passado biográfico do
paciente, ou ao passado de um elemento do seu sistema familiar.”
(Franke, 2002, p.109)
Segundo a minha experiência com muitos pacientes que têm feito
comigo terapias longas, também os sintomas de doenças psíquicas
graves (medos, depressões, obsessões, dependências...) incluindo
psicoses, representam uma “tentativa de solução” de um conflito
psíquico. Por um lado, protegem a pessoa de mais dores psíquicas
e sentimentos insuportáveis. Por outro bloqueiam ao mesmo tempo
o seu crescimento psíquico. Congelam o desenvolvimento num
estado momentâneo e fixam as pessoas em determinados
comportamentos, como reacção a estados que experienciam como
ameaçadores. Nesta perspectiva, o que ajuda na terapia é
unicamente a compreensão das funções específicas de protecção
desses sintomas. A importância do sintoma tem que ser
reconhecida e valorizada. É só quando, através de um processo
terapêutico que lide com os sintomas resultantes das ameaças
vividas que se pode criar uma alternativa ao padrão existente.
Assim, os sintomas podem “iniciar a sua retirada” deixando
espaço para que surja uma forma mais madura de gerir o conflito
psíquico.
Trauma psíquico – A palavra trauma significa ferida. Neste
sentido fala-se na medicina por ex. De um traumatismo craniano.
Transferindo este conceito ao nível psíquico podemos falar
também de uma ferida psíquica quando os processos psíquicos tais
como: percepção, sensação, pensamento, memória, imaginação,
etc., já não funcionam normal e saudavelmente. Exemplos: uma
pessoa está concentrada e assusta-se com um ruído e fica banhada
em suor de medo ou os pensamentos de alguém estão continuamente
fixados num determinado acontecimento; ou ainda alguém que já
não se consegue lembrar de determinados acontecimentos
importantes.
Quero referir como exemplos para as causas de um trauma
psíquico: acidentes graves (de carro, de comboio, queda de uma
avião...), tortura, situações de guerra, violência sexual, etc.
Na investigação do trauma costuma-se distinguir dois tipos de
situações traumáticas:
— Trauma de tipo 1: acontecimentos que surgem súbita e
inesperadamente.
— Trauma de tipo 2: situações longas, de exigência excessiva e
em que existe sentimento de impotência.
No trauma existe uma diferença fundamental entre, por um lado, a
exposição a uma ameaça e a perturbação emocional daí derivada e,
por outro, as possibilidades de acção da pessoa para se
proteger. O observador do trauma de outras pessoas pode também
ficar psiquicamente traumatizado (Fischer, Riedesser, 1999).
A partir do trabalho prático com os pacientes torna-se cada vez
mais claro para mim que, no fundo, não há doenças psíquicas
graves sem um trauma subjacente. Tentei, assim, sistematizar os
acontecimentos traumáticos e distingo agora, quatro formas de
traumas:
— Traumas existenciais: situações de vida e morte (p. ex. em
situações de catástrofes ou de guerra).
— Traumas de perda: quando uma pessoa sofre a perda de um
vínculo psíquico muito importante para ela (p. ex. morte da mãe
de uma criança)
— Traumas de vinculação: a necessidade de vínculo de uma pessoa
é traumatizada, pelo que não pode mais entregar-se
emocionalmente a vínculos humanos (p.ex., abuso da filha pelo
próprio pai);
— Traumas de vinculação sistémica: nestes casos todo um sistema
de vinculação (p. ex. uma família) é traumatizado por
determinados acontecimentos (incesto ou assassinato de um
familiar).
Podemos de uma forma geral relacionar os sintomas de doenças
psíquicas graves com as diferentes formas de traumas:
— Nos traumas existenciais encontramos muitas vezes medos
intensos e perturbações de pânico (Ruppert, 2001a).
— Nos traumas de perda encontramos, na maior parte das vezes,
depressões graves.
— Nos traumas de vinculação constatamos comportamentos
sintomáticos que são diagnosticados na psiquiatria clínica como
distúrbios borderline da personalidade.
— Traumas de vinculação sistémica relacionam-se, conforme a
minha experiência, com estados de perturbação psicótica.
A superação de um trauma através de sintomas tem duas tarefas a
cumprir:
— Primeiro tem que se estabelecer uma distância em relação à
vivência traumática.
— Depois tem que encontrar uma regra de sobrevivência para a
pessoa não voltar a entrar numa situação traumática.
A resposta automática de emergência, na sobrevivência do trauma,
dissocia as percepções, os sentimentos e os pensamentos e reduz
assim, a energia do trauma (Ruppert, 2001b, p. 48 sg.). A
dissociação da memória do trauma permite que a percepção
consciente e o pensamento fiquem livres para assegurar a
sobrevivência. As emoções provocadas pelo trauma são afastadas
da memória consciente. Mas mesmo estando separadas das ligações
nervosas que regulam a consciência de vigília elas ficam
armazenadas nas camadas inferiores do cérebro, sobretudo nas
células que estão em contacto neuronal e hormonal com as regiões
do sistema límbico e do cerebelo.
Assim, o traço de memória do trauma continua a existir no corpo
todo ou em partes dele, e funciona como uma bomba-relógio
psíquico, com o seu tic-tac próprio.
No entanto, numa situação que se pareça com a situação
traumática original se a “camada de defesa” se tornar demasiado
fina e não conseguir evitar que o trauma penetre nas estruturas
cerebrais mais desenvolvidas do neocórtex e na memória
consciente, então existe o perigo de que a vivência da situação
actual se misture com a vivência traumática antiga e os
sentimentos saiam de novo totalmente do controlo.
Um trauma acontece sempre num contexto social. Na maior parte
das vezes existem vítimas principais e um número maior de
pessoas que, embora feridas menos profundamente em termos
psíquicos, sofrem muitas vezes de forma grave as consequências
de um trauma (p. ex. uma família que recebe um soldado
traumatizado na guerra) (Stricevic, 2002).
Sistemas de menor vinculação (p. ex. famílias) podem ser tão
traumatizados como os sistemas maiores (etnias, povos, nações).
A noção limitada e reduzida existente sobre o trauma e as
pessoas dele directamente afectadas, ( como acontece no
Distúrbio do Stress Pós-Traumático PTSD), é insuficiente tanto
para a compreensão dos acontecimentos traumáticos como para a
sua transformação duradoura.
“A traumatização psicossocial implica feridas que não podem ser
enfrentadas unicamente através da psicoterapia. As ofertas de
apoio têm que incluir sempre uma iniciativa dirigida para as
causas das feridas. De facto, se as condições políticas não são
consideradas, o risco de qualquer trabalho Psicoterapêutico não
ter efeito é grande.” (Heckl, 2003)
O conceito individualizado de trauma também não ajuda a perceber
a sintomatologia psicótica. Neste caso, são de excluir as
situações traumáticas em que uma pessoa que se tornou psicótica
pode ela própria ser ferida gravemente a nível psíquico É por
isso que, até hoje, todas as tentativas da psicologia de
explicar as psicoses e de as tratar com sucesso pela
psicoterapia, têm dado poucos ou nenhuns resultados.
Depois de muitas tentativas teóricas infrutíferas na solução
deste enigma só as constelações familiares me indicaram uma
pista que se tem revelado cada vez mais válida: num sistema de
vinculação psíquica os traumas parecem ser passados de geração
em geração. Nomeadamente as memórias traumáticas dissociadas são
entregues aos descendentes, de forma inconsciente, como uma
herança muda. Estas memórias perduram por três ou quatro
gerações e têm uma influência significativa na psique individual
de uma pessoa, mesmo se ela nascer só dezenas de anos depois do
acontecimento traumático ter sucedido.
Vínculo psíquico através de gerações – O método da constelação
familiar torna visível como os seres humanos estão ligados em
sistemas de vinculação e emocionalmente dependentes uns dos
outros de muitas formas. Mostra o caminho que sobretudo os
sentimentos e pensamentos difíceis tomam no interior de um
sistema plurigeracional.
Distingo os conceitos de relação e de vínculo. Há relações em
que não existem vínculos emocionais verdadeiros (p. ex. quando
um homem e uma mulher vivem juntos sem terem sentimentos um pelo
outro) e noutras há vínculos apesar de não existir nenhuma
relação real (p. ex. quando alguém tem uma forte ligação a um
parceiro anterior, talvez até já falecido). Vínculos fortes e em
parte indissolúveis são criados sobretudo pela descendência
biológica (nomeadamente os vínculos mãe-filho, pai-filho e entre
irmãos) e pela sexualidade (vínculo entre parceiros). Os
vínculos são caracterizados por sentimentos fortes como amor,
medo, raiva, orgulho, vergonha ou culpa. Os vínculos
estabelecem-se, regra geral, sem um esforço consciente das
pessoas em questão. Acontecem. Uma vez estabelecidos oferecem
resistência à sua dissolução. A possível perda de um vínculo
provoca medo. Os vínculos estão protegidos contra a sua
dissolução arbitrária pelo facto de a separação criar uma dor
forte. A dimensão da dor provocada pelo soltar do vínculo é um
sinal da força desse mesmo vínculo.
É através dos vínculos que se estabelecem as estruturas básicas
transgeracionais da convivência humana. Sem vínculos não haveria
grupos humanos maiores. Provavelmente não haveria o que chamamos
fraternidade. Podemos constatar também em animais formas de
comportamento e de vida baseados em vínculos.
Para realçar a qualidade específica da ligação entre seres
humanos escolhi a noção vínculo de alma. O conceito de alma tem
grande importância na história cultural e filosófica humana (Hinterhuber,
2001). A alma, em todas as religiões e filosofias tem a função
de colocar questões sobre a origem da vida, da existência
específica do ser humano no mundo e daquilo que resta de uma
pessoa depois da sua morte biológica.
Defino a alma como aquela força que liga o que pertence a um
grupo de seres e o delimita de outro. Uma alma comum inclui
assim, conjuntos de seres humanos e delimita-os. Cria o
sentimento de pertença. Cada pessoa participa na alma comum do
seu grupo com os seus sentimentos. Assim a alma é parte de cada
elemento do grupo mas também é um fenómeno sobre-individual. O
relacionamento de cada elemento com o respectivo grupo
influencia os seus membros na sua percepção, sentir, pensar,
imaginar e lembrar. A alma significa, neste sentido, também
partilhar sentimentos. Sobretudo as crianças absorvem na sua
própria psique os sentimentos dos pais.
Segundo Hellinger o sentimento e a necessidade de pertença são,
por seu lado, a base da consciência (Hellinger, 2002, p. 210
seg.). A consciência orienta comportamentos elementares na base
dos sentimentos de culpa e inocência. Favorece assim, a troca
entre membros de um conjunto de pessoas e regula o dar e o
receber e também o respeito por certas ordens básicas em grupos.
É grande mérito de Hellinger ter percebido e formulado tão
claramente a relação entre vínculo e consciência e de chegar,
assim, à compreensão profunda de culpa e inocência. Pela relação
no grupo estabelece-se uma compreensão de bem e de mal, de certo
e de errado. A verdade e a moral são, nas suas formas originais,
relacionadas com o grupo e, portanto, relativas. O que num grupo
é considerado bom e correcto pode ser considerado mau e errado
noutro. Devido à sua pertença a grupos os seres humanos pensam
naturalmente em termos ideológicos e consideram-se em geral
melhores que os elementos de um outro grupo.
Quem faz parte de um grupo tem direito a uma protecção especial
no seu seio. Não pode ser excluído. Por causa da importância
desse vínculo na sua vida e na sua sobrevivência, a exclusão de
uma pessoa pelo seu grupo tem uma qualidade traumática. Como os
vínculos não se dissolvem automaticamente pela morte e como
todos nós tememos a exclusão do grupo continuamos a dar aos
mortos, por muito tempo, um lugar na alma do grupo. Em quase
todas as culturas as pessoas passam muito tempo a lembrar os
seus mortos.
3. As causas psíquicas das
confusões psicóticas
Traumas tabus – Se, conforme a minha argumentação, os sintomas
têm uma função de protecção, se são consequência de um trauma
psíquico e se continuam activos num sistema de vinculação
psíquica durante gerações – que sentidos terão, então as
psicoses?
Uma resposta básica poderia ser: na psicose um acontecimento
traumático do passado vem à luz e chega a determinado elemento
da família por transmissão de experiências traumáticas,
dissociadas de pais para filhos.
O que é afinal especial neste acontecimento traumático pelo que
é capaz de provocar de confusões emocionais? A sua
especificidade consiste no facto de estar ligado a um grau tão
elevado de medo e de sentimentos tão extremos de vergonha e
culpa que, até à actualidade, não pôde ser comunicado
abertamente à família. Assim, tornou-se tabu e foi mantido em
segredo por aqueles que sabiam. O saber que algo de muito grave
aconteceu – algo que abala nos seus alicerces emocionais a
coesão de uma entidade familiar - ficou no entanto guardado,
dissociado da consciência.
Como já referi anteriormente estes traumas têm a sua origem em
geral, no incesto e no assassinato. As maiores tragédias
familiares acontecem quando o incesto tem por consequência a
gravidez da filha ou quando um familiar mata outro (p. ex. o
homem mata a sua mulher para poder casar com outra). A
impulsividade e a paixão sexual que ultrapassam todos os limites
e tabus morais e a culpa pela morte de familiares são os factos
que traumatizam um sistema familiar inteiro e significam a sua
ruína. O sistema só pode continuar a existir se o acontecimento
traumático for ignorado tornando-se um segredo familiar.
O psicoterapeuta francês Serge Tisseron exemplificou em
numerosos casos como um segredo é transmitido de geração em
geração por variadas imagens e como ele é guardado em muitos
esconderijos da (não) comunicação familiar (Tisseron, 2001). Em
John Bradshaw encontramos também muitos indícios de como os
“segredos obscuros” nascem e como eles levam a múltiplas formas
de confusões psíquicas em familiares que ficam inconscientemente
sob sua influência (Bradshaw, 1999). Numa família, a relação
para com a verdade é fundamentalmente perturbada pelos segredos.
Como Tisseron também postulo uma sequência plurigeracional na
formação de confusões psicóticas. Enquanto a geração em que o
trauma aconteceu o recalca e cala consciente e activamente a
próxima geração tem somente a consciência que existe algo pelo
qual é melhor não perguntar. A geração a seguir nota na alma dos
seus pais estranhas manchas “cegas” e fica muito insegura.
Através da vinculação a nível da alma os acontecimentos
traumáticos dissociados são copiados de um grande disco para
outro, sem que os ficheiros possam ser abertos conscientemente.
Geralmente estes ficheiros só serão abertos de maneira não
controlada e por vivências emocionais intensas, junto de uma
pessoa nascida mais tarde, p. ex.: através de uma gravidez, um
acidente, uma morte súbita ou também pelo consumo de drogas. É
por isso que as psicoses surgem súbita e inesperadamente.
É no entanto importante distinguir desse processo
plurigeracional aqueles estados de confusão provocados por:
— Influência directa, p. ex.: estupefacientes, medicamentos,
intoxicações, traumatismos cranianos, processos de degeneração
cerebral.
— Experiências traumáticas da própria pessoa, por ex., pessoas
que foram abusadas sexualmente de forma grave numa idade precoce
sofrem de memórias súbitas de imagens da sua violação (trauma-flashbacks)
e de medos de perseguição. Essas pessoas têm geralmente uma
personalidade múltipla já que a dissociação da personalidade é
muitas vezes a única saída para sobreviverem às feridas
psíquicas infligidas (Huber, 1998).
Caso clínico – Para terminar cito o exemplo de um trabalho com
um homem jovem que sofria há oito anos de alucinações em parte
paranóicas e em parte maníacas. Depois de ter consumido drogas
em conjunto com amigos teve subitamente sentimentos de medo,
deixou de ser capaz de tomar decisões por si próprio e teve que
interromper os seus estudos. Passava o tempo a fazer horas na
casa dos pais e teve de vez em quando ataques maníacos em que
estragava a mobília. Um dia pegou no carro dos pais e só foi
parado pela polícia depois de uma perseguição por toda a cidade.
Todos os métodos anteriores de tratamento e de cura
psiquiátrica, psicoterapêuticos ou alternativos não conseguiram
alterar significativamente o seu estado. A anamnese familiar
revelou que da parte da mãe havia um segredo relacionado com o
avô dela. Fragmentos desse segredo eram: uma amante com um
filho, um machado, um enforcado. O que aconteceu de verdadeiro
continua obscuro. Da parte do pai também havia um segredo
relacionado com o avô. Aqui os fragmentos eram: o bisavô do
paciente, morto e ensanguentado num campo. Como se soube depois,
através da tia-avó do paciente o bisavô era militar e teria
havido um “acidente” em que perdeu a vida. Os familiares ficaram
proibidos de falar sobre este acontecimento.
Trabalhei repetidamente com este cliente e com os seus pais mais
de dois anos em terapia individual e em grupo. Camadas por
camada surgiram os sentimentos traumáticos presos e não libertos
das duas linhas de origem. Os sentimentos de medo e pânico em
relação à descoberta dos acontecimentos traumáticos, os ataques
de raiva e impotência sobre o sucedido, os sentimentos de amor
intensos, as dores do luto não vivido, a necessidade de vingança
e a procura de justiça apareceram em diferentes constelações,
tanto nas sessões individuais como nas de grupo, quer do
paciente, quer da mãe e nas do pai. Lentamente e com o tempo as
energias traumáticas dissolveram-se tanto nos pais como no
paciente, dando lugar a uma grande paz de alma.
O trabalho com constelações tem um lugar central neste tipo de
terapia das psicoses. Só a constelação torna visível como os
acontecimentos traumáticos são transmitidos de geração em
geração.
Para verdadeiramente se saber trabalhar com confusões psicóticas
é, no entanto, preciso:
— Ter uma boa compreensão dos acontecimentos possivelmente
subjacentes a uma psicose.
— Uma capacidade de interpretar apropriadamente o que surge numa
constelação.
— Uma atitude muito reservada na determinação definitiva e na
interpretação de acontecimentos do passado.
— Considerar que uma família só pode fazer este processo de
confrontação com a realidade e a verdade, devagar e passo por
passo.
— Nomear as responsabilidades mas ao mesmo tempo evitar o juízo
moral.
— Uma capacidade de diagnóstico diferencial, ou seja saber
diferenciar traumas passados e actuais.
Penso que se tornou claro que o trabalho com pacientes com
confusão psicótica não pode ser um acto único de constelação mas
exige paciência e persistência para acompanhar uma pessoa e a
sua família, através de um caminho muitas vezes doloroso, de
confrontação com as longas sombras de dramas passados.
Bibliografia
Bauml, J. (1994): Psychosen aus dem schizophrenen Formenkreis.
Berlin: Springer-Verlag.
Bradshaw, J. (1999): Familiengeheimnisse. Warum es sich lohnt,
ihnen auf die Spur zu kommen. München:
|