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Caminhos na
terapia de casal
Jakob Robert
Schneider(*)
As constelações familiares também funcionam sempre como terapia
de casal. Juntamente com os processos entre pais e filhos, a
relação entre o homem e a mulher é o coração da Psicoterapia. É
bem verdade que, nos chamados “movimentos da alma”, nosso
horizonte se estendeu para além da constelação familiar,
abrangendo nossa inserção em contextos existenciais mais amplos:
a relação entre vivos e mortos e entre agressores e vítimas, a
guerra, conflitos de nacionalidades e religiões. Não obstante,
as constelações voltam sempre a afetar em seus efeitos a relação
conjugal e as relações familiares.
O sucesso do amor entre o homem e a mulher talvez seja o nosso
anseio mais profundo, e o fracasso desse amor faz parte de
nossos medos e sofrimentos mais profundos. Surpreende-me sempre
constatar que a pressão pelo sucesso das constelações nos grupos
para casais é muito maior do que nos seminários para pessoas
doentes, onde freqüentemente se trata de vida e de morte. No
aconselhamento de casais percebe-se também, de modo especial,
uma alta expectativa dirigida ao terapeuta ou ao aconselhador.
Pois trata-se de decisões sobre o prosseguimento da vida em
comum e das conseqüências que acarretam para os parceiros, os
filhos e as bases materiais da vida. Trata-se também das mágoas
e dos medos associados ao amor, onde somos ainda mais
vulneráveis do que no tocante à nossa integridade física.
Na seqüência, abrirei uma perspectiva de conjunto sobre os
caminhos da terapia de casal, a partir da experiência com as
constelações familiares e do trabalho com os fatores que as
condicionam.
Pressupostos para o bom êxito de uma terapia de casal
Os casais procuram ajuda em suas necessidades, mas
freqüentemente com idéias que estragarão qualquer ajuda se forem
acolhidas pelo terapeuta. O denominador comum dessas idéias é o
abandono da responsabilidade pelo sucesso do aconselhamento.
Neste particular, a fantasia usual de um ou de ambos os
parceiros é que algo se deteriorou em seu relacionamento e que
cabe ao terapeuta, como perito e especialista, repará-lo em sua
“oficina”. Ou então o casal procura um juiz para resolver o seu
caso, alguém que ouça os argumentos das ambas as partes e dê o
seu justo veredicto. Alguns buscam no terapeuta, de um modo mais
pessoal, uma autoridade cheia de amor que, à maneira de um
aliado, um pai ou uma mãe, saiba o que se deve fazer e se
imponha ao outro parceiro.
Conflitos de casal assumem freqüentemente a forma de um
desacordo em decisões relevantes, onde cada um procura mudar o
outro para que se ajuste a sua experiência de vida, a seus
desejos e convicções. Como, apesar de intensos esforços, não lhe
bastou para isso a força de sua persuasão, ele transmite ao
terapeuta, de forma aberta ou velada, o seu real desejo:
“Convença-o você, eu não consigo”. Mormente no atendimento
individual, quando apenas um dos parceiros procura conselho,
transparece este apelo: “Meu parceiro não me dá o que preciso,
não me dá atenção, não está disponível para mim. Por favor,
dê-me atenção, esteja disponível para mim, seja para mim uma
pessoa familiar e confiável”. Assim, o terapeuta é solicitado a
preencher uma lacuna para a satisfação das necessidades infantis
ou conjugais do cliente.
A montagem da constelação familiar, em sessão de grupo ou na
consulta individual, com a preservação da atitude fenomenológica
que fundamenta esse trabalho, ajuda o terapeuta a não acolher
esses desejos com a intenção de ajudar o casal. Em vez disso,
ele deve manter a atitude imprescindível para se alcançar uma
solução. Ele entra em sintonia com a alma ou com o campo de
relacionamento do casal. Acompanha a vibração do sistema do
relacionamento, através da constelação ou de outro método que
lhe permita ver e entrar em contato. E faz com que se manifeste,
através daquilo que se mostra, algo que seja importante para o
casal e o faça avançar. O terapeuta apenas transmite uma
indicação ou um conselho essencial, e depois se retira. Não
acompanha o processo do casal até a solução. No máximo,
comporta-se como um navegador experimentado que, de acordo com o
objetivo do casal, indica o caminho ou mesmo assume o comando em
seu trecho inicial.
Terapeutas não são mecânicos, juizes, correligionários, pais ou
familiares. Um aconselhamento de casal não tem por função
modificar a personalidade dos parceiros. Ele permanece sempre
incompleto e visa apenas o que é exigido para o próximo passo.
Permanecem com o casal o objetivo e o caminho da solução, bem
como a responsabilidade e a força para resolver o problema.
Assim se preserva a dignidade do casal, bem como a do terapeuta.
O que o aconselhador pode fazer de mais importante pelo casal em
sua necessidade, antes mesmo de abrir-lhe uma nova perspectiva
sobre sua mútua relação, é interromper os padrões que impedem e
destroem o relacionamento. Da mesma forma como recusa acolher as
idéias dos parceiros sobre a maneira de ajudá-los, ele
interrompe rapidamente os padrões de pensamento e de
comportamento que são parte do problema e não trouxeram ajuda
até o momento. As constelações familiares, seja em grupo ou em
sessões individuais, são uma grande ajuda metódica, já pelo
simples fato de que afastam imediatamente os parceiros de
discursos estereotipados sobre o relacionamento, levando-os a um
olhar conjunto sobre a constelação e, consequentemente, sobre os
movimentos mais profundos que fazem progredir o seu
relacionamento.
Soluções com vistas às ocorrências dentro do relacionamento
do casal
A atenção do aconselhador ou do terapeuta deve se voltar
inicialmente para o que ocorreu na história do casal,
investigando o que aconteceu por obra do destino ou por
responsabilidade pessoal de um ou de ambos os parceiros e os
levou aos limites de seu relacionamento. Cito aqui alguns pontos
mais importantes, com breves exemplos.
Vínculos anteriores não honrados
Relacionamentos anteriores que criaram vínculo através de um
profundo e marcante exercício da sexualidade e foram desfeitos
com mágoas ou sentimentos de culpa, pelo menos de um dos
parceiros, interferem nas relações ulteriores. Quando o amor, a
dor e o preço pago na ligação anterior não são honrados no novo
relacionamento, isso não apenas induz filhos dos novos
relacionamentos a representar ex-parceiros dos pais que não
foram devidamente respeitados, como também impede, muitas vezes,
os novos parceiros de assumir sua relação, pelo preço que custou
aos parceiros anteriores. O ciúme, por exemplo, é uma forma
inconsciente de lealdade a uma ligação anterior do parceiro.
Quando um homem abandona sem necessidade sua mulher para viver
com uma amante, o ciúme desta freqüentemente destrói a nova
ligação. Ela não consegue assumir a relação pelo preço que
custou à parceira anterior, e torna-se igual a ela no medo de
perder o homem para uma outra mulher.
As ligações anteriores são muitas vezes esquecidas, reprimidas
ou não reconhecidas em seus efeitos posteriores. Um homem se
queixou de que, depois de dois casamentos e de um terceiro
relacionamento mais longo, apaixonara-se de novo, mas a mulher
não queria casar-se com ele. Em sua constelação verificou-se que
todas as mulheres estavam zangadas com ele, inclusive as duas
filhas de seu primeiro matrimônio. Só após um persistente
interrogatório ele revelou, com um gesto depreciativo da mão,
que aos 17 anos tivera um amor de juventude com intenso
envolvimento sexual e que, pouco depois de ter-se separado dessa
moça, ela foi internada numa clínica psiquiátrica. Uma
representante dessa mulher foi então incluída na constelação.
Ela chorou amargamente e todas as outras mulheres tinham
lágrimas nos olhos. Somente quanto o homem a encarou como seu
amor de juventude, falou-lhe como a sua primeira mulher, mostrou
compaixão com seu destino e a abraçou de novo com amor é que ela
ficou tranqüila e sorriu. As outras mulheres também abriram
sorrisos e a última delas disse: “Agora já posso pensar em
casar-me com ele”. E, de fato, os dois se casaram depois.
Ocorrências traumáticas no relacionamento conjugal
Entre as ocorrências que atuam como graves ofensas na relação de
um casal e com freqüência acarretam a separação, porque o
destino não pode ser carregado em comum, enumeram-se: filhos
prematuramente falecidos, abortos provocados, abortos
espontâneos em grande número, ausência de filhos, sexualidade
deficiente, doenças graves, acidentes, culpa real ou imaginária
em relação ao parceiro ou a outras pessoas, ameaça às bases da
existência e graves ameaças à integridade do corpo ou da alma.
Com a ajuda de uma constelação é possível conjurar forças que
possibilitem aos parceiros a superação conjunta do evento
traumático, reforçando o vínculo ou então levando-os a aceitar o
fato de que já não podem assumir em comum o destino ou a
responsabilidade.
Uma mulher procurou um grupo porque buscava um caminho para
dissolver o “profundo mutismo” que havia entre ela e o marido. A
constelação de sua família atual mostrou realmente que havia um
abismo entre o casal, o que fez com que a atenção se desviasse
imediatamente dos filhos para os pais. Perguntada sobre que
fatores de separação houvera entre ela e o marido, a mulher logo
disse que tinha havido ainda uma quarta criança, bem mais nova,
fruto de uma noitada, que eles decidiram abortar. Foi colocado
um representante para essa criança, que sentou no chão, entre os
pais. Os representantes dos pais olharam imediatamente para a
criança, colocaram-se juntos atrás dela, puseram espontaneamente
as mãos sobre sua cabeça, olhavam alternadamente para a criança
e entre si e deixaram silenciosamente correr suas lágrimas. A
mulher que colocara sua família estava sentada na roda e também
chorava em silêncio. Os representantes dos filhos deram um passo
para trás, afastando-se dos pais, e simplesmente ficaram
olhando. Terminada a constelação, a mulher agradeceu e disse que
ela tinha salvado a sua vida. Admirado, o terapeuta lhe
perguntou o que ela queria dizer com isso. Ela respondeu: “Pouco
depois do aborto apanhei um grave reumatismo e imediatamente
reconheci que esta era a minha forma de expiar pelo aborto”. No
dia seguinte, ela contou que, na noite do próprio dia da
constelação, seu marido regressou de uma longa viagem de
negócios e ela lhe contou o que se passara. Então ele se sentou
no sofá, chorou muito e disse: “Eu sempre me senti muito
culpado”. E passaram toda a noite conversando.
Num grupo de constelação familiar, um homem manifestou, como seu
problema, que sua mulher se esquivava dele e tratava sem amor a
filha e um filho mongolóide, que estava internado num asilo. Na
constelação, a mulher realmente se mostrou isolada e totalmente
fria. Os três filhos – pois tinha havido um outro filho
mongolóide, o mais novo, falecido aos quatro anos de idade– se
distanciaram dos pais, afastando-se, e a filha se colocou entre
a mãe e os irmãos, como se quisesse protegê-los. O terapeuta
perguntou então ao homem se tinha havido recriminações pelos
filhos que nasceram mongolóides. O homem engoliu em seco e
disse: “Sim, meus pais fizeram graves acusações à minha mulher,
dizendo que ela trouxera da família uma péssima herança genética
e jamais deveria ter-se casado comigo. E eu defendi meus pais e
suas acusações”. Então o terapeuta colocou esse homem diante da
representante de sua mulher e pediu aos dois que se olhassem
demoradamente, realmente encarando-se. Isso entretanto era
visivelmente difícil para eles. Finalmente o homem conseguiu
dizer à mulher: “Sinto muito. Coloquei em você todo o peso do
destino de nossos filhos doentes. Juntamente com meus pais,
responsabilizei você e sua família e a magoei muito. Se você
ainda puder aceitar isto, estou disposto agora a retirar minha
acusação e a carregar com responsabilidade e amor, junto com
você, o destino de nossos filhos”. – Então a representante de
sua mulher se lançou em seus braços e chorou por longo tempo. Em
seguida ela o encarou amorosamente, caminhou para os filhos e os
abraçou. Quando o pai se aproximou, por sua vez, e juntamente
com sua mulher abraçou os filhos, eles finalmente aceitaram a
proximidade da mãe.
Na terapia de casal e nas constelações que revelam a dinâmica
dos relacionamentos verificamos portanto quais são os eventos
que atuam como fatores de separação num relacionamento e que
caminho se oferece ao casal no sentido de carregar algo em
comum, restaurar a ligação, assumir a dor da perda e deixar que
o passado seja passado. E verificamos como um casal pode lidar
com tais eventos. Mesmo quando for inevitável a separação, os
acontecimentos que separam podem, passado algum tempo, descansar
em paz e a relação pode terminar com amor e dignidade.
A ordem confiável na família
Freqüentemente o amor entre o homem e a mulher é impedido por
não serem reconhecidas as condições para o crescimento da
relação. Neste caso, a constelação é útil para encontrar as
formas de restabelecer a ordem no sistema.
Por exemplo, uma das condições mais importantes para o bom êxito
do amor é que, no processo de dar e tomar, se volte sempre a
alcançar uma compensação positiva. Quem toma, também deve dar;
se ama, deveria dar um pouco mais do que recebeu. Assim, através
do amor, a troca recíproca é estimulada no sentido de um alto
investimento de vida. A isto chamamos felicidade. Mas essa
felicidade é também difícil. Ela exige muita coisa dos
parceiros, que então dificilmente podem separar-se. Às vezes,
alguém já não consegue sustentar a troca crescente do dar e
tomar, e talvez se sinta atraído por um outro parceiro, com quem
possa trocar menos. Ou então minimiza com críticas o que recebe,
para sentir-se menos obrigado.
A compensação entre o dar e o tomar funciona nos relacionamentos
como uma lei natural. Se o desequilíbrio cresce demais, a
relação não consegue suportá-lo. Se, por exemplo, a mulher
custeou para o marido uma formação superior, sustentando-o, é
freqüente que ele a deixe depois, porque a compensação se torna
muito grande e difícil para ele. Quando um dos parceiros traz um
grande peso em bens, relacionamentos anteriores, filhos,
destino, caminho de vida, e o outro não pode contrapor-lhe nada
de equivalente, isso pode destruir o relacionamento depois de
algum tempo. A gratidão e o amor podem aliviar parte do
desequilíbrio, mas muitas vezes é difícil.
Também as ofensas exigem compensação. Enquanto o parceiro
ofendido quiser permanecer inocente não haverá possibilidade de
compensação. Se, inversamente, o revide for tão grande que cause
ao outro um sofrimento ainda maior, a relação entrará num
círculo vicioso de brigas e ofensas recíprocas, que só conhecerá
pausas pelo esgotamento e geralmente sobreviverá a uma
separação. A solução, neste caso, é buscar a compensação através
de uma zanga ou de uma exigência menos ofensiva, que respeite o
parceiro e o convide a retomar o amor, dando-lhe a oportunidade
de reparar algo amorosamente e de dar algo bom de um modo
diferente.
Citarei aqui, de modo sucinto, outras formas das ordens do amor.
A primeira é a primazia da relação do casal sobre o cuidado dos
filhos – pois o cuidado dos pais pelos filhos aumenta com o amor
recíproco entre os pais. Se este é sacrificado em benefício do
cuidado com os filhos, isto separa os pais e os filhos não o
aceitam, porque os pais pagam o preço em sua relação.
Já nos sistemas familiares complexos, onde existem filhos de
relações anteriores, a ordem correta confere primazia ao cuidado
pelos filhos dessas relações. Contudo, no que toca à relação
entre o homem e a mulher, prevalece o novo sistema.
Naturalmente resultam conseqüências de peso para uma relação e
para os filhos quando um parceiro que tem um filho de uma
relação anterior silencia este fato e não provê a criança. Para
além da ignorância do fato, isso pesa também sobre o
relacionamento seguinte e os filhos subsequentes.
Obviamente, é muito importante que a relação do casal seja
confiável como relação entre um homem e uma mulher. Por outras
palavras, o homem deve ser e permanecer homem e a mulher deve
ser e permanecer mulher. Os parceiros devem sentir necessidade e
confiança mútua, sobretudo no que se refere à sexualidade e ao
provimento das condições de vida.
Devemos considerar também outra ordem do relacionamento, fruto
da percepção que Bert Hellinger exprime com esta frase: “A
mulher deve seguir o homem (em sua família, em seu país, em sua
cultura) e o homem deve servir ao feminino”.
Na terapia de casal devemos, portanto, ter em vista o que está
em desequilíbrio na relação e como é possível restaurar uma
troca positiva e aberta para o futuro, ou então conseguir uma
compensação que possibilite uma boa separação. Verificamos,
ainda, o que precisa ficar em ordem na relação, de modo que ela
volte a ser vivida de uma forma confiável.
Soluções com vistas a acontecimentos e destinos nas famílias
de origem
Talvez o aspecto mais importante na terapia conjugal seja a
percepção dos envolvimentos dos parceiros nas respectivas
famílias de origem. Esta é freqüentemente a zona menos
perceptível para os parceiros e é aí que as constelações lhes
fornecem o maior esclarecimento. De fato, a terapia de casal
sempre levou em conta a interferência de necessidades infantis
insatisfeitas e de traumas de infância. Entretanto, foi somente
através das constelações familiares que foram percebidos, em
toda a sua amplitude e em seus efeitos trágicos, os
envolvimentos profundos dos parceiros em destinos que abrangem
várias gerações e em temas familiares não resolvidos. A maioria
dos problemas sérios de relacionamento nada tem a ver com o
próprio casal e com seu amor recíproco. Cegamente absorvidos em
conflitos não resolvidos, e muitas vezes inconscientes, de
antepassados das famílias de origem, os parceiros carecem de
compreensão e sensibilidade em seu relacionamento e projetam ou
procuram resolver um no outro o que malogrou em seus
antepassados por força do destino ou por responsabilidade
pessoal.
Comportamento cego de ambos os parceiros com respeito a
destinos e eventos anteriores
Num grupo para casais, um deles constelou o seu sistema atual. A
mulher trouxera para o novo casamento um filho de um matrimônio
anterior. Na nova relação, embora recente, já havia muita briga.
Na constelação evidenciou-se que a mulher tinha muito pouca
consideração pelo ex-marido e uma grande esperança de que o novo
marido viesse a ser um pai melhor para a filha dela. A relação
entre a mãe e a filha era muito estreita, e o marido atual se
sentia estranho e olhava para fora. Nessa constelação, a filha
assumiu e honrou seu pai. O marido atual ficou aliviado e
encontrou um lugar ao lado de sua esposa. Parecia que a
constelação tinha funcionado e trazido solução.
Entretanto, à noite o marido procurou o terapeuta. Disse que se
sentia muito mal e que também não revelara o mais importante:
que tinham sérios problemas no relacionamento sexual, onde ela
fazia muitas exigências que ele não podia satisfazer. No dia
seguinte, o terapeuta fez com que o marido montasse a
constelação de seu sistema de origem. Ela evidenciou que o homem
tinha uma estreita ligação com sua mãe e assumia junto dela o
lugar do pai. O representante do pai olhava para fora do
sistema, totalmente fascinado por algo terrível. Averiguou-se
que, no decurso de uma longa fuga da prisão, que durou três
anos, ele fuzilou um homem que lhe barrara o caminho. Na
compreensão desse evento, que foi muito comovente para o casal,
evidenciou-se que o marido não ousava aceitar o amor de uma
mulher nem gerar um filho, porque o regresso do pai ao lar e seu
conseqüente casamento com sua mãe só foram possíveis através do
assassinato de uma pessoa. Este era um importante quadro de
fundo para os problemas sexuais por parte do marido. Um cartão
postal enviado pelo casal, nas férias que se seguiram, dava a
entender que algo se resolvera em sua relação.
Mas esta história ainda teve prosseguimento. Algum tempo depois,
a mulher ligou para o terapeuta. Disse que houvera muitas
melhoras no casamento e que o marido mudara muito e estava muito
afeiçoado a ela. Mas ela se sentia de novo intranqüila e
insatisfeita quanto à relação sexual. Então, através de duas
breves ligações telefônicas, entrou em contato com uma avó que,
depois da morte de seu primeiro marido, por quem tinha muito
amor, tivera uma vida muito infeliz e uma relação muito
insatisfatória com os homens que se seguiram. Percebendo sua
estreita ligação com essa avó, a mulher conseguiu acolhê-la
amorosamente em seu destino e desidentificar-se dela. Num outro
cartão de férias comunicou que agora estava muito satisfeita e
que estava bem com o marido.
A dupla transferência
Um fenômeno freqüente em conflitos sérios entre parceiros
aparece no que Bert Hellinger chamou de “dupla transferência”.
Se uma injustiça cometida entre um homem e uma mulher, numa
geração anterior, não teve a devida compensação, esta é
transferida para seus descendentes. Ela atinge então pessoas
totalmente inocentes, acrescentando uma nova injustiça à
primeira. Assim, por exemplo, uma mulher “bondosa” e compassiva
tolera, por anos a fio, os casos públicos de seu marido que
muito a magoam, mas sua filha assume a vingança em nome da mãe.
Entretanto, como também ama e protege o pai, vinga-se em seu
marido, molestando-o abertamente com um namoro. A transferência
no sujeito significa aqui que ela age em lugar de sua mãe. E a
transferência no objeto significa que a compensação não se
dirige à pessoa do pai, mas ao marido. Embora inocente, este é
chamado a pagar por uma injustiça na família de sua mulher. Ao
mesmo tempo a filha torna-se semelhante ao pai em seu
comportamento, não agindo melhor do que ele.
Certa mulher estava sempre muito irritada com seu marido e, como
ela própria notou, sem razão. Na constelação, ficou claro que
ela representava uma tia que, como primeira filha de mãe
solteira, fora totalmente excluída da família por seu avô. Em
substituição a essa tia, a mulher assumiu a raiva pela injustiça
mas, poupando o avô, dirigiu-a contra o próprio marido. Ao mesmo
tempo, e sem consciência do fato, deu à sua filha mais velha o
mesmo nome da tia. A história somente lhe foi revelada por uma
conversa telefônica posterior com o próprio pai.
Uma outra mulher, que era bonita mas tinha uma fisionomia muito
carregada, era seguidamente abandonada pelos homens. Não dava a
impressão de ser agressiva, mas comportava-se como uma vingadora
cautelosa, aguardando o momento certo para o golpe. As
informações sobre sua família revelaram que sua mãe, aos doze
anos de idade, fora estuprada e quase morta. Na constelação a
mulher experimentou o medo pânico de sua mãe e, assumindo o
papel de sua representante diante do agressor, bradou-lhe no
rosto: “Eu mato você!” Foi somente o reconhecimento desse
agressor como primeiro homem da mãe, e uma profunda reverência
da mãe e da filha diante do destino que uniu a mãe e seu
agressor como homem e mulher num evento terrível e sem saída,
que trouxe alívio e luz ao semblante da jovem mulher. Então ela
pôde entender seus impulsos de vingança diante dos homens, e em
que medida nisso ela se ligava à mãe e ao mesmo tempo se tornava
semelhante ao agressor.
A fascinação de um parceiro pela morte
Uma dinâmica usual que separa os parceiros resulta do fato de
que um deles, de algum modo, está mais perto da morte do que da
vida. Essa pessoa não está realmente presente, e toda a luta do
outro para retê-lo apenas agrava o conflito. Assim, certa mulher
ficou muito tocada quando, numa constelação, pôde ver em que
direção olhava o ex-marido do qual acabara de separar-se como
sua quinta mulher (ele vivia trocando de mulheres). Na
constelação, seu representante não olhava para nenhuma de suas
mulheres e namoradas, cujas representantes tinham sido colocadas
ali, mas apenas para uma antiga noiva que, pouco antes do
casamento, morreu num acidente. Ele queria seguir essa mulher na
morte, como se só assim pudesse consumar-se esse grande amor.
Um homem muito bem sucedido e, não obstante, solitário, ficou
muito assustado quando se revelou em sua constelação que ele, no
meio de todos seus casos, levava consigo esta frase: “Antes te
amar do que morrer”.
Sentia-se atraído por sua mãe, que morrera muito cedo, e na
constelação só encontrou paz junto dela. É como se tivesse
sentido toda a sua vida através dessa atração por sua mãe, e
tivesse se defendido dela através desses amores. E talvez também
tivesse procurado encontrar neles sua mãe viva, naturalmente não
a encontrando.
Nas camadas profundas da alma de homens violentos e mulheres
agressivas manifesta-se, às vezes, um grande desespero, o medo
de perder o parceiro pela morte e uma luta impotente contra
isso. Muitos casamentos fracassaram no pós-guerra porque o homem
não conseguia aceitar o fato de ter sobrevivido, em face dos
numerosos companheiros mortos com quem diariamente lutara pela
sobrevivência. Mesmo voltando para casa, ele desejava, no
íntimo, juntar-se aos companheiros mortos. Abala-nos sempre
perceber, no decurso de constelações, em quantos conflitos de
casal existe, bem no fundo, uma questão de vida e de morte, e
quanto de emoção e de entendimento mútuo se libera quando isso
vem à luz e, na medida do possível, pode ser resolvido.
Gostaria de mencionar aqui, muito rapidamente, uma dinâmica que
se revela cada vez mais, logo que ficamos atentos a ela. Dois
parceiros se encontram, em muitos casos, devido à existência de
destinos semelhantes em suas famílias de origem. Quando, por
exemplo, há um filho presumido na família de um dos parceiros, o
mesmo ocorre, com freqüência, na família do outro, muitas vezes
com diferença de uma geração. Se numa das famílias os homens têm
uma posição desfavorável, isso também acontece freqüentemente na
outra família. Se uma das famílias sofre os efeitos de destinos
envolvendo criminosos e vítimas, o mesmo ocorre geralmente na
outra família. Parece que instintivamente percebemos no parceiro
os destinos de sua família, no que têm em comum com os destinos
da nossa. São bem diferentes, entretanto, os padrões de lidar
com tais destinos. Assim, com freqüência as pessoas se completam
pelo lado funesto: por exemplo, um dos parceiros se identifica
com as vítimas de um avô no regime nazista, enquanto o outro se
envolve com um avô que pertenceu às forças de choque do regime.
Quando ambos os parceiros comparecem a um trabalho para casais,
em grupo ou num aconselhamento privado, as conexões que vêm à
luz proporcionam muita compreensão recíproca e uma visão do
quadro de fundo das dificuldades de relacionamento. Também para
o terapeuta é emocionante presenciar quando o auto
reconhecimento de um casal envolvido nos destinos familiares se
manifesta de uma forma que reforça seu vínculo no amor.
O movimento amoroso interrompido
Uma dinâmica importante nos conflitos de casal se mostra quando
há um movimento precocemente interrompido no amor dirigido à
mãe. Isto não constitui, em sua origem, um conflito sistêmico, e
só se torna tal quando é transferido para a relação conjugal.
Uma interrupção no movimento amoroso origina-se na criança
pequena quando ela é separada da mãe nos primeiros anos de vida,
geralmente por força do destino, por exemplo, porque a mãe teve
de ficar hospitalizada por várias semanas depois do nascimento,
ou porque a criança de um ano precisou ser internada para uma
operação, ou porque a mãe morreu quando a criança tinha três
anos. Trata-se portanto de uma separação prematura que sofre a
criança, principalmente em relação à sua mãe, às vezes também ao
seu pai. O efeito que isso terá sobre a vida posterior da
criança, e principalmente sobre os seus relacionamentos, será
tanto maior quanto mais existencialmente ameaçada esteve a
criança e quanto mais ela teve de abandonar a esperança de
recuperar a proximidade da mãe.
Quando um homem ou uma mulher olha para o seu parceiro, sente o
desejo de amá-lo e de ser amado por ele. Entretanto, ao se
aproximar do parceiro, surge na pessoa, como num reflexo, o
antigo medo da criança, de perder sua mãe e de não poder mais
confiar nela, junto com uma grande dor e uma profunda
resignação. Esse padrão é transferido inconscientemente ao
parceiro e uma luz vermelha se acende: “Não quero sofrer isso de
novo. Prefiro me retirar logo disso”. Entretanto, como todo
mundo gosta de amar e de ser amado, a pessoa volta a tomar um
impulso e a procurar o parceiro. Mas, logo que se chega ao amor,
emerge novamente o medo da criança pequena e a pessoa torna a
recuar. Isto foi descrito por Bert Hellinger como o círculo
vicioso da neurose. A maior parte dos chamados conflitos de
proximidade e distância têm assim sua origem num movimento
precocemente interrompido em direção à mãe. Esses conflitos não
podem ser resolvidos na própria relação conjugal, mas exigem que
a criança presente no adulto, numa experiência retroativa, seja
acolhida com força e amor por sua mãe ou por um terapeuta que a
substitua. Isso exige uma experiência de transe ou uma vivência
corporal em que o adulto se sinta de novo como uma criança
pequena e que, como uma criança pequena, experimente um abraço
que lhe permita atravessar a dor e recuperar a confiança em sua
mãe.
Quando, na terapia de casal, trazemos assim à luz, de uma forma
liberadora, fatos passados, isso ajuda o “amor à segunda vista”
(Bert Hellinger), a saber, as dimensões mais profundas de um
amor dotado de visão. Representa uma ajuda para o futuro e para
um amor bem sucedido do casal (mesmo que, no caso de uma
separação, apenas para o tempo em que ainda havia amor). Uma
compreensão retroativa só tem sentido na medida em que abre para
o casal novos passos para o futuro, no sentido do título de um
dos livros de Bert Hellinger: “Vamos em frente”.
A dimensão espiritual da terapia de casal
Quando as constelações na terapia de casal são bem sucedidas,
elas abrem para os parceiros um caminho espiritual para o bom
êxito de seu relacionamento. O “espiritual” é entendido aqui num
sentido mais amplo, como uma espécie de purificação do
relacionamento, e como uma forma de inserir-se no espaço maior
da alma, que transcende o próprio relacionamento. Também neste
particular apontarei brevemente os pontos essenciais.
A fila dos antepassados
A vida nos vem através de nossos pais, mas não se origina neles.
Ela vem de longe. Às vezes, podemos colocar os parceiros de
frente um para o outro (e isso costuma ser muito útil quando há
problemas sexuais) e, atrás de cada um deles, uma fila de
antepassados. Isso permite perceber a força da vida que vem de
longe e é transmitida através dos antepassados, e também a
alegria de viver. Esta conexão, através dos antepassados, com a
ampla totalidade da vida é um ato religioso fundamental. Ao
realizá-lo nesse espírito, cada um pode sentir, em si mesmo e no
parceiro, o que isso proporciona em termos de afluxo de força,
de movimento amoroso para o parceiro e de uma união aberta, no
sentido de uma vida mais ampla.
O ato de encarar-se
Só conseguimos manter muitos conflitos de relacionamento porque
realmente não nos encaramos. Os sentimentos que não podemos
manter quando nos olhamos nos olhos não contribuem para o bom
êxito do relacionamento. Eles nos mantêm presos a todo tipo de
fantasias e de padrões antigos, que nada têm a ver com a relação
conjugal. É realmente um exercício espiritual diário
desprender-se continuamente desses sentimentos e pensamentos que
não conseguimos manter de olhos abertos.
O respeito pelos mais antigos e a primazia do novo
Para o êxito do amor existe um processo indispensável, que tem a
ver com o respeito pelos mais antigos e com o progresso. O
primeiro passo é este: “Respeito os meus pais e a minha família,
e tudo o que vale nessa família”. O segundo passo diz: “Respeito
os teus pais e a tua família, e tudo o que vale em tua família”.
O terceiro passo costuma ser doloroso. Ambos os parceiros olham
para seus pais e lhes dizem interiormente: “Preciso deixar vocês
e me desprender também de muita coisa que era importante para
vocês. Preciso deixar o que está em oposição ao que traz o meu
parceiro em termos de hábitos, normas, valores, fé ou cultura, e
o que me impede de dar prioridade à minha união atual e à minha
família atual”. E, num quarto passo, os parceiros se encaram e
dizem um ao outro: “Vamos fazer algo de novo a partir do antigo
que trouxemos, algo que acolha e transcenda o que ambos
trouxemos, algo de novo que una e que leve ao futuro, e no qual
possamos crescer juntos como pessoas autônomas.”
Da necessidade de partilhar
Muitos conflitos de casal resultam do desejo de que o parceiro
satisfaça as nossas necessidades infantis, como se ele tivesse
de dar-nos o que deixamos de receber de nossos pais. Isto,
porém, sobrecarrega o parceiro, principalmente quando veicula
esta mensagem: “Sem você não posso viver!” A solução espiritual
reside em ficar em paz com os próprios pais e em dizer ao
parceiro: “O que recebi de meus pais basta, e isso eu partilho
de boa vontade com você. E o que você traz dos seus pais basta,
e eu me alegro se você o repartir comigo. E o que ainda nos
falta nós conseguiremos por nossas próprias forças”. Quando este
nível adulto de partilhar e de comunicar-se tem força, podemos
nos permitir, às vezes, acessos de necessidades infantis, como
em situações de estresse e doença. O parceiro estará presente
por algum tempo, suportando e dando, até que melhoremos.
Liberdade através do relacionamento
Aqui direi algo de ousado. Às vezes pensamos que, se
estivéssemos sós, seríamos mais livres em nosso desenvolvimento
e em nossas possibilidades. A realidade é o inverso. A evolução
nos ensina que a associação dos parceiros (não a uniformização
associada a uma compulsão totalitária) diferencia cada
indivíduo, torna-o mais variável em seu pensar e agir do que
quando fica confinado à própria individualidade. Quando, com
vistas ao parceiro, temos de nos defrontar com coisas novas e
procurar novas formas de equilíbrio interno e externo, isto nos
libera um pouco dos próprios esforços, que são freqüentemente
cegos, em nosso interior. Ganhamos em variedade e equilíbrio,
que são pressupostos imprescindíveis para um certo grau de
liberdade. Talvez a melhor maneira de descrever a realização
espiritual e simultaneamente a realização sistêmica básica na
relação do casal seja utilizar, num sentido um pouco mais amplo,
as palavras de Bert Hellinger: “Eu amo você e amo aquilo que
suporta, dirige e desenvolve a você e a mim”.
(*) Original: “Wege in der Paartherapie”, em: Praxis der
Systemaufstellung, 1/2002. Versão elaborada de uma conferência
proferida no 3º Congresso Internacional de Constelações
Sistêmicas (Würzburg, Alemanha, 2001). Traduzido por Newton
Queiroz, Rio de Janeiro, jan. 2003.
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