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SIMILARIDADES E DIFERENÇAS INTERNACIONAIS NA ESTRUTURA E NOS PROBLEMAS FAMILIARES
Resultados Preliminares do Método da Contelações Familiares
Apresentado pelo Dr. Berthold Ulsamer no 10º Congresso
Mundial de Terapia Familiar em Dusseldorf, Alemanha
O que são as Constelações Familiares?
O terapeuta alemão Bert Hellinger desenvolveu esse novo tipo de
terapia breve, que poderíamos descrever como uma árvore
genealógica viva, englobando elementos das esculturas familiares
e do psicodrama. Em sua forma e em sua abordagem teórica
contudo, esse trabalho é único e novo e tem procedimentos e
efeitos surpreendentes. Esse tipo de terapia foi desenvolvido em
áreas de língua germânica e, Bert Hellinger originalmente
limitou suas áreas de atuação às regras e experiências que foram
descobertas lá.
Esse tipo de terapia contém métodos que são apenas aplicáveis
aos países de língua germânica? Será que Hellinger encontrou
ordens que são tipicamente alemãs, ou elas são úteis em outros
países?
A minha apresentação consiste em 03 partes:
1. Uma breve introdução ao trabalho prático envolvido e seu
background.
2. Similaridades e diferenças nacionais com exemplos de vários
países.
3. Considerações adicionais: existe uma unidade coletiva? Essa
unidade coletiva tem efeito sobre as pessoas e a terra natal?
O método da Constelação Familiar em uso prático
O cliente que deseja fazer uma constelação terá os resultados
mais plenos em um grupo. Primeiro é necessário para o cliente
ter uma razão específica para colocar sua constelação. O
requisito é frequentemente uma pergunta a cerca da causa de
certos sentimentos conflitantes (depressão, sentimentos de
culpa, etc. ) ou a cerca da causa de relações perturbadas na
família.
Primeiro, o cliente dá ao terapeuta fatos essenciais a cerca da
sua família nas últimas 02 ou 03 gerações. Perguntas importantes
que precisam ser respondidas são: Quem morreu cedo (antes de 25
anos)? Houveram crimes cometidos por membros da família? Por
acaso algum membro da família carrega um pesado sentimento de
culpa por alguma razão? Os pais tiveram relações amorosas
prévias, e elas tiveram consequências dignas de nota (ex:
agressões, emigrações, nascimentos fora do casamento, adoção,
etc)?
Então o cliente escolhe entre os membros do grupo, pessoas para
representar seus pais, irmãos, a si mesmo e outros membros
importantes da família. Também são representados membros da
família que já morreram. Espontaneamente e centrado, o cliente
posiciona cada representante, um em relação ao outro, na área de
trabalho assim como.
Os representantes em seus respectivos lugares, sentem as
relações desse sistema e percebem os sentimentos das pessoas que
elas representam. Esse efeito é ainda um fenômeno inexplicável.
Durante o trabalho prático com constelações, o terapeuta aprende
a confiar nesse fenômeno mais e mais e a deixar-se levar por
ele.
O efeito terapêutico das constelações advém de:
• Mostrar e posicionar a imagem interna da família do cliente
com todas as suas tensões e conflitos.
• trazer de volta pessoas importantes que foram esquecidas
• usar “frases de força” que trazem os conflitos à luz e os
soluciona.
• Encontrar uma nova posição/ordem para as pessoas envolvidas.
As posições dos representantes é mudada no fim da constelação,
gerando uma nova imagem interna de solução.
Quando Bert Hellinger desenvolveu as constelações familiares
(nas regiões do mundo de fala germânica) ele descobriu ordens
básicas subjascentes. De fato, há exceções a todas as ordens,
mas algumas se repetem com regularidade.
Seis importantes ordens e princípios
1. Cada membro de uma família pertence a ela igualmente. Cada
família tem um vínculo interno muito forte , a despeito do quão
desunida ela pareça quando olhamos de fora. Todos os membros de
uma família merecem atenção. Se alguém é expulso, ele será
representado por um membro que nascer mais tarde, o qual irá
impor a si mesmo um destino similar.
2. A morte precoce de um membro da família tem um forte efeito
sobre todo o sistema. Uma inclinação para morrer advém nos
irmãos do morto, devido a suas conexões com ele. Isto é expresso
através da frase “ Eu seguirei você”. Se alguém carrega algo
assim e mais tarde tem filhos, estes percebem isto e tentam
aliviar os pais. Isto é expresso pela frase “Melhor eu do que
você”. Esta inclinação para a morte se mostra através da doença
e de comportamentos perigosos (esportes radicais, uso de
drogas).
3. Crianças tomam sentimentos de outros membros da família. Isto
ocorre de dois modos: ou elas compartilham fortes sentimentos de
outros membros da família (elas ajudam a carregar estes
sentimentos por assim dizer) , ou elas tomam para si sentimentos
não expressos. Por exemplo, uma avó submissa é abusada
fisicamente por seu marido. Ela tem então uma neta que por sua
vez fica enraivecida com seu marido por nenhuma razão aparente.
Na constelação familiar torna-se claro que a neta carrega a
raiva de sua avó.
4. As crianças são leais aos seus pais (pai e mãe). As crianças
quase sempre lidam com seu próprio destino de modo a impedir que
elas mesmas tenham um destino melhor que o de seus pais. Devido
a esta lealdade elas tendem a repetir o destino destes pais e
seus infortúnios.
5. Há uma ordem na família que precisa ser respeitada. A pessoa
que vem primeiro, seja um irmão ou um parceiro, toma o primeiro
lugar. Os outros seguem esta ordem cronológica. Estes lugares
precisam ser respeitados sem julgamento ou valorização, apenas
percebidos como são.
6. Há uma organização espacial básica que é preferível. Há uma
ordem básica na qual todos os membros de uma família se sentem
bem, desde que se garanta que todas a conexões negativas tenham
sido resolvidas. Nesta ordem os pais ficam à frente de seus
filhos com o pai ficando no primeiro lugar e a mãe seguindo no
sentido horário a ele (quando olhamos de cima). As crianças
devem ficar olhando seus pais seguindo o sentido horário de
acordo com sua ordem cronológica do mais velho para o mais novo.
Existem traços nacionais típicos nas constelações?
Este trabalho emergiu nos últimos 20 anos na Alemanha. Uma
pergunta que vem é se ele é aplicável a outros países também.
Esta pergunta foi respondida de modo afirmativo por terapeutas
que tem feito constelações familiares em países como Brasil,
Eslováquia e França. Eu tenho feito trabalhos na Suíça, Espanha,
Itália e Argentina e também alguns grupos no Japão e e Taiwan.
Tem se tornado claro que as ordens e princípios escritos acima
se aplicam também a famílias de outras nações e culturas. Quais
são as similaridades e diferenças? Eu só posso dizer que elas
estão baseadas em experiências pessoais e não em evidência
estatística. Contudo, a experiência é informativa , porque ela
mostra as famílias e nações sob uma nova perspectiva.
As consequências da guerra
Uma grande similaridade existe entre países que estiveram em
guerra nas últimas 2 gerações. O resultado da guerra é a morte
de soldados jovens. Pais perdem seus filhos, irmãs perdem seus
irmãos e crianças nascem, porém nunca conhecerão seus pais
porque eles morreram antes que elas nascessem.
Nas constelações alemãs, tem sido demonstrado o quão doloroso é
a perda de um irmão para uma irmã. É freqüente que uma
inclinação para morrer nasça daí. Os filhos destas irmãs sentem
isto, tomam isto para si e eles próprios também desenvolvem esta
inclinação para a morte. Contudo, a mesma dor ocorre em outras
nações, como me foi mostrado na constelação de uma
psicoterapeuta espanhola. A despeito de anos de análise sobre a
morte de seu pai, o qual havia morrido antes de seu nascimento
na guerra civil espanhola, ela só conseguia imaginá-lo como um
fantasma.
Contudo, a morte pode ter vários efeitos. Há tipos de morte que
são experimentados coletivamente e de uma forma especialmente
traumática. Consequentemente estas mortes são reprimidas na
consciência tanto quanto possível e tem um peso muito grande na
família. Usualmente as pessoas que tomam parte numa constelação
chegam a ter calafrios quando tais mortes são mencionadas. Na
Alemanha estas são as mortes que ocorreram nos campos de
concentração nazistas. No Japão, são as mortes que ocorreram em
decorrência das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e
Nagasaki.
Uma perda é especialmente má quando a família não está certa da
ocorrência da morte. Este é, por exemplo, o caso do destino de
vários homens na Argentina que desapareceram e foram
sequestrados sob o poder da ditadura – os “desaparecidos”. Mesmo
hoje, após muitos anos, as famílias dos mortos vão regularmente
a Buenos Aires para protestar.
Uma constelação na Alemanha me mostrou o quanto é difícil lidar
com aqueles que desaparecem. Nos anos 50, um homem cujo irmão
estava desaparecido por 10 anos, teve a morte deste irmão
declarada legalmente para que se pudesse fazer a partilha da
herança. Devido a isto o irmão sobrevivente sentiu uma culpa
enorme – quase como se ele fosse um assassino.
Quando nós olhamos para o mundo de hoje para países como a
Iugoslávia ou outros países do continente africano, só podemos
especular acerca da extensão das tragédias e suas conseqüências
para as gerações futuras.
Países não envolvidos em guerras nas gerações recentes
O que dizer das constelações em países que tem se mantido longe
das guerras ? Eu passo agora a relatar minhas impressões obtidas
num recente seminário de 6 dias com um grupo de pessoas da
Suíça. Os primeiros 2 dias foram muito leves. Isto é diferente
das constelações na Alemanha, onde as mortes da II Guerra
Mundial aparecem com freqüência – pais, irmãos e crianças que
morreram lá. Parecia que circunstâncias favoráveis tinham
protegido os suiços de tais tragédias. A intensidade do
seminário estava bem baixa.
No terceiro dia, aquele tipo de coisa que as famílias de classe
média costumam suprimir veio com muita força à superfície. Houve
uma constelação na qual um pastor cometeu adultério com a mulher
que iria se tornar a sogra de seu filho. A mulher deu a luz a
uma criança (filha dela e do pastor) mas ela foi considerada
filha do marido desta mulher... Em várias famílias veio a luz
casos de abuso. Parecia que muitas famílias precisavam de pelo
menos uma ovelha negra para carregar os problemas da família.
Aqueles que tomaram parte controlaram suas emoções a um elevado
grau e usaram muita energia para fazê-lo. Quando eles não
puderam mais manter o controle, os sentimentos suprimidos vieram
à tona, dramática e incontrolavelmente.
Outras culturas
Eu agora gostaria de entrar em detalhes sobre minha experiência
com cerca de 20 constelações feitas com pessoas japonesas e de
Taiwan.
As constelações foram em grande parte similares umas às outras –
mais do que entre as constelações alemãs. Os representantes do
pai e da mãe mantiveram uma certa distância entre si e algumas
vezes ficavam de costas um para o outro. Quando eram virados de
modo a ficarem frente-a-frente se sentiram estranhos um ao
outro. Nenhum parecia realmente querer estar com o outro por
amor. Muitos casamentos foram arranjados. O resultado:
desapontamento recíproco e frustração, dos quais no melhor dos
casos gerou uma certa “camaradagem” entre os parceiros em meio a
uma situação tão difícil. Uma frase que uma pessoa sentiu ser
capaz de trazer alívio foi: “ Você me frustrou e eu a você – nós
estamos no mesmo barco.” As mulheres estavam especialmente
indispostas a assumirem responsabilidade por terem casado com
seus parceiros, pelo menos de início. Elas se viam como vítimas.
A força para assumir a responsabilidade só veio quando foi
incluída a representante da mãe ao lado de sua filha. Isto foi
diferente do que foi observado nas constelações alemãs.
Ao mesmo tempo houveram dinâmicas de transferência de
sentimentos de amor na família – quase sempre tendências
eróticas entre a mãe e seu filho favorito ou o pai e sua filha
favorita. Nas constelações alemãs sentimentos eróticos muito
fortes entre os pais e suas crianças resultam da dinâmica na
qual uma criança representa um primeiro amor ou noivo de um dos
pais. Em uma das constelações japonesas, a relação erótica entre
o pai e a filha foi tão forte que eu estava certo de que o pai
teve uma primeira mulher. A filha (a cliente cujo sistema estava
sendo constelado) não sabia nada a cerca da existência de tal
mulher. Eu finalmente arrisquei um experimento e posicionei uma
mulher para representar este primeiro amor do pai. O pai começou
a considerar aquilo e então concluiu “esta é minha mãe”.
Se fosse para generalizar minhas percepções então eu diria que
as conexões eróticas profundas dessas crianças a seus pais acaba
por impedí-la de ter relações realmente satisfatórias mais tarde
na vida. Ao invés disso elas também, por sua vez, buscam uma
criança para estabelecer uma relação que realmente preencha o
coração delas. Esse padrão é revivido de uma geração para a
outra. Mesmo as outras crianças – devido à lealdade ao destino
dos pais – raramente têm relações amorosas plenas.
Como nas constelações alemãs, chegou-se a uma ordem básica
apropriada no final – os pais lado a lado e as crianças de
frente para eles, da mais velha para a mais nova. Contudo, tanto
para os pais quanto para as crianças foi necessário deixar
bastante espaço entre eles.
Eu presenciei uma fascinante constelação de uma mulher em Taiwan
– que era sobre a morte precoce de sua irmã. A irmã morta ainda
pertencia à família. Até mesmo um lugar na mesa era sempre
reservado para ela. De início a irmã morta foi vista como sendo
perigosa e ameaçadora. A irmã sobrevivente estava com medo dela
muito mais do que numa situação similar observada em
constelações alemãs. Devido a esta experiência, eu suspeitei que
a morte precoce tem o efeito “eu seguirei você” também nas
outras culturas (apesar delas lidarem com a morte de maneira
diferente do que fazemos). Uma irmã ou irmão morre e os outros
vivem. Mas os sentimentos de culpa dos sobreviventes não são
aliviados pelos atos rituais.
Um terapeuta japonês que já tinha dado seus primeiros passos no
trabalho de constelações familiares com seus patriotas, disse-me
que o trabalho tinha servido como uma espécie de escola par
ensinar os homens japoneses a entrarem em contato com os seus
sentimentos. Eles reprimem completamente os seus próprios
sentimentos. Contudo, como representantes acham fácil perceber e
expressar sentimentos.
Agora eu gostaria de passar algumas experiências que meus
colegas que trabalham com outras nacionalidades, contaram-me.
Jacob Schneider trabalhou muitas vezes no Brasil –
principalmente com terapeutas que são descendentes de imigrantes
europeus. Vários temas vieram à luz em seu trabalho. Um de tais
temas é que as consequências da emigração e integração em uma
nova terra desempenham uma grande tarefa. Ele cita um exemplo de
uma constelação com um padre cujo pai estava morrendo, mas que
por alguma razão não podia ainda morrer. Na constelação, foi
mostrado que o pai já tinha aceitado sua morte iminente mas
tinha ainda um problema com seu filho. Só quando o filho
posicionou seu representante alinhado com os representantes de
seu pai e de seu avô e garantiu a eles que honraria e manteria
sua herança italiana foi que o pai sentiu-se aliviado. Logo após
a constelação desse filho, o pai morreu em paz com o filho a seu
lado.
Em muitas constelações o filho permanecia ao lado da mãe e a
filha ao lado do pai. As crianças pareciam muito envolvidas no
casamento dos pais e inclinadas a tornar-se parceiros afetivos
substitutos. Muitos brasileiros vivem próximos à morte sem que a
dinâmica exata seja visível. Em nenhuma das constelações
houveram crianças prematuramente mortas na geração atual ou
anterior – um fato que Schneider achou ímpar. Em quase todas as
famílias contudo, haviam mortes por acidentes de tráfego. Os
membros da família não tinham muito conhecimento sobre eventos
da história familiar, no que diferiam dos alemães.
A situação com brasileiros de classe social inferior e/ou
ancestralidade africana ou indígena era muito diferente. Nesses
grupos sociais há uma enorme quantidade de incesto e estrutura
familiares desoladas, muitos irmãos desconhecidos e pouca
segurança social dada pelos pais. Nestes casos parecia haver
pouca chance de se obter uma ordem completa na família. De
acordo com Schneider era imperativo ver onde existia um lugar
relativamente seguro para as crianças que as ajudasse a seguir
um destino obrigatoriamente diferente do de seus pais e ao mesmo
tempo reconciliá-las com seus pais.
Que relação tem as pessoas com seu próprio país e povo?
O trabalho com constelações revela que há muitas áreas bem
definidas de conexão humana. Subjacente a isso, certas ordens e
princípios atuam. Um exemplo de ordem importante a respeito das
relações amorosas é que parceiros prévios precisam ser
reconhecidos e que cada um tenha seu lugar numa ordem
cronológica. Então existe a família cuja ordem já foi
mencionada. Há também princípios que atuam em organizações, tal
como aquele que diz que pessoas que estão numa organização há
mais tempo precisam ter seu tempo de casa respeitado.
Uma área desta conexão humana que está começando a se mostrar
tem a ver com nacionalidade e país de origem. Existe algo
coletivo que se refere a uma conexão com a terra natal? Que
princípios funcionam aí?
Uma constelação levada a cabo por um colega e eu há poucos anos
atrás ampliou largamente meus horizontes. Até aquela época, eu
ficava aborrecido pela constante preocupação da mídia com o
terceiro Reich. Eu era da opinião de que não deveríamos nos
preocupar com isso e, ao invés, olhar para o futuro. Embora eu
não fosse pessoalmente afetado por uma história familiar de
nazismo, pois meus pais tinham desenvolvido uma aversão a esta
ideologia, por suas crenças católicas. Meu pai foi médico
durante a guerra e tinha sobrevivido ileso.
Nessa constelação, um homem de 40 anos cujo avô foi um nazista
entusiástico, colocou sua família. O homem e também seu
representante estava excitado e atraído pela força e poder da
ideologia nazista. De maneira a trazer a realidade criminosa do
que aconteceu nos bastidores, nós acrescentamos alguns
representantes para os perpetradores nazistas e também suas
vítimas à constelação. Contudo, o homem ainda achou difícil
aceitar a realidade e queria permanecer cegamente atado às
idéias sedutoras do nazismo. Somente após um ano ele foi capaz
de aceitar a realidade através de uma outra constelação similar.
Após essa constelação, eu subitamente senti que eu também estava
no mesmo barco que ele e precisava olhar para este passado.
Desde então, minhas impressões sobre os alemães e suas relações
com o terceiro Reich mudaram. Parece-me agora que um povo
inteiro tornou-se culpado da destruição inclemente de judeus e
outros grupos raciais. Cada pessoa, quase todos, de uma forma ou
de outra carrega uma parte dessa culpa e deste modo colabora com
ela. Como Bayohr provou em sua tese de doutorado publicada
recentemente, a propriedade total de pelo menos 30000 casas
pertencentes a judeus assassinados ou expulsos foi leiloada,
somente em Hamburgo. Ele calculou um total de 100000 compradores
e estimou que devem ter havido milhões de compradores similiares
em todo o país. Isto significa que milhões de alemães obtiveram
vantagem às custas da morte dos judeus.
Os filhos e netos da geração da guerra vivem, parece-me, uma das
duas alternativas. Ou não aceitam seus pais que estão carregados
de culpa, e assim permanecem sem força ou raízes ( neste caso,
quando estão fora de seu país, sentem-se envergonhados de serem
alemães ) ou eles colocam botas de combate, raspam a cabeça e
espancam estrangeiros ou outros grupos raciais ( e desse modo
aceitam seus pais, e têm a mesma força, mas também a mesma culpa
).
Quando observo outras nações européias, sua unidade e laços
familiares, parecem-me mais fortes do que na Alemanha. As raízes
parecem mais intactas. O único país cuja população parece ter
ainda menos raízes é o EUA. Isto pode ser percebido pelas
constantes mudanças de carreira, vida privada e localização de
moradia. A terra foi ganha através da destruição ou expulsão da
população nativa, os índios americanos. Eu suspeito que um
mecanismo similar ao que atua na Alemanha esteja em
funcionamento. A culpa dos ancestrais sobrecarrega a relação que
suas crianças ou descendentes posteriores tem com eles.
Dissolvendo as conexões com um crime
As constelações fazem com que um passo significativo e gerador
de cura em um outro nível seja possível. Se o pai ou a mãe
cometeu um crime sério, especialmente assassinato, há duas
coisas a serem feitas consecutivamente na constelação.
Num primeiro passo, o pai ou a mãe deve ser reconhecido em seu
papel de ter dado a vida. A criança então agradece aos pais pela
vida que ela recebeu. A seguir ela deve deixar a culpa ou
responsabilidade pessoal dos pais com eles. Se alguém se torna
um assassino, ele tem de deixar a família na constelação. Então
todos se sentem aliviados – não apenas o resto da família, mas o
agressor também. Se o agressor não sai, então as crianças que
nascerem depois tomarão a culpa e se tornarão, ou agressores ou
vítimas nas gerações futuras.
O passo que leva a um novo nível é possível através da
constelação. Uma criança reconhece o pai ou a mãe como aquele de
quem recebeu a vida e ao mesmo tempo deixa o agressor manter sua
culpa e responsabilidade por suas ações. Então a criança
permanece intacta com suas raizes, sem tomar parte na culpa que
não é sua. Parece-me que este passo tem de ser feito por cada um
, individualmente.
O que é “terra natal”?
Um pequeno episódio que aconteceu em Buenos Aires esclareceu a
conexão que as pessoas tem com sua terra natal. Uma mulher
argentina de 60 anos, cujos pais alemães emigraram para a
Argentina antes dela nascer, contou-me a seguinte história. Ela
estava assistindo ao jogo entre Alemanha e Argentina pela copa
do mundo de futebol. Quando a Alemanha fez seu primeiro gol, ela
espontaneamente caiu no choro – e foi recebida com expressão de
estranheza por seus amigos.
Durante as constelações, o tema “terra natal” aparece no “pano
de fundo” quando esta terra natal foi perdida. Para clientes,
cuja família foi expulsa de um país ou emigrou, é possível
posicionar um representante para a terra natal, mesmo quando os
pais são de diferentes nacionalidades. O representante percebe
sentimentos claros em seu papel de terra natal – usualmente
sentimentos de paz e força.
A pessoa cuja terra natal é representada, sente também uma forte
relação com a mesma. Usualmente posicionar uma terra natal trás
um sentimento de força e alívio, como acontece, por exemplo, com
alemães que tiveram que refugiar-se na Prússia Oriental, após a
II guerra mundial. Podemos sentir essa forte conexão com a terra
ancestral, a qual não se dissolve, mesmo quando se deixa essa
terra.
O efeito desta perda é similar ao efeito de perder uma pessoa da
família. Se essa perda reprimida, é como uma ferida interna que
permanece aberta, nos tornando fracos. A ferida só pode se curar
quando permitimos que a dor tenha um lugar. À terra natal é dado
um lugar na constelação, onde ela possa ser reconhecida e
apreciada.
Uma situação especialmente difícil, ocorre para filhos e netos
de imigrantes. Alguns rejeitam a terra natal de seus pais – eles
querem virar as costas para a velha terra natal e ficar de
frente para a nova. Porém, com isso, perdem uma parte importante
de suas raízes e força. A frase que é apropriada e tem um bom
efeito aqui, pode ser por exemplo: “eu reconheço você como a
terra natal de meus pais e lhe dou um lugar em meu coração”. A
criança então, ganha força através do reconhecimento de suas
raízes.
O tema terra natal se torna muito significativo quando
trabalhamos com refugiados ou estrangeiros que trabalham na
Alemanha, cujas crianças querem se integrar à sociedade alemã. O
diretor de uma penitenciária para menores, contou-me a cerca de
um grupo de jovens curdos presos que repetidamente, irrompiam em
situações de violência abrupta e incontrolável. Os pais, ao
contrário, viviam em paz e bem adaptados na Alemanha. Eu conduzi
uma constelação nessa prisão, com um jovem que havia sido preso
por estupro. Seus pais tinham vindo da Iugoslávia, e eu decidi
posicionar representantes para a Iugoslávia e Alemanha. O jovem
não deu nenhuma atenção para a terra natal de seus pais. Já o
representante da Iugoslávia disse que ele sentia que a chave
para a solução estava nele – a terra natal.
Um grande campo de pesquisa está aberto nesse contexto. Uma
constelação familiar conduzida por Bert Hellinger, com um judeu
alemão, em Frankfurt, fevereiro de 1998, trouxe à luz esse
tópico. No começo do terceiro Raich, seus pais mudaram-se para
Israel (que ainda era Palestina nesse tempo). O filho nasceu e
viveu lá até os 12 anos. Após isto, viveu na Alemanha e
considerava-se um alemão. Na constelação foram escolhidos
representantes para Israel e Alemanha, e esses foram
posicionados. Israel sentiu-se não reconhecido e não visto. Um
passo importante até a solução para os pais e o filho veio
quando Israel foi trazido e reconhecido. Contudo, o filho judeu
sentiu-se desconfortável ao lado de seus pais, alguma coisa
ainda parecia estar faltando, ele se sentia como se não tivesse
terra natal. Espontaneamente, Hellinger posicionou uma família
que estava presente no curso como representantes dos palestinos
que foram expulsos de Israel. Ele os posicionou de frente para
Israel, e deixou o cliente mudar o lugar de seus representantes,
e este se posicionou ao lado dos palestinos expulsos. Aí, ao
lado dos expulsos, sentiu-se pertinente e pôde relaxar.
A expulsão é sempre uma injustiça contra aqueles que são
expulsos. Os que chegam depois e que tomam a terra nessas
condições, aproveitam-se desta injustiça. O desejo de compensar
e expiar aparece então, nos filhos e netos dos agressores. Nessa
constelação, a necessidade de compensar mostrou-se no fato do
filho judeu não aceitar Israel como sua terra, mas ao contrário
tomar para si os sentimentos das vítimas de não possuir uma
terra.
O que mais nos conecta?
Simplesmente ser humano nos conecta a todos. A partir desse
simples fato, derivam várias ordens e princípios básicos.
Usualmente tais ordens tornam-se claras em uma constelação
quando uma pessoa torna-se um assassino. Neste caso, tudo o mais
que se refira à família ou nação, não desempenha nenhum papel. A
culpa permanece forte do mesmo jeito. Ser humano é tudo que é
necessário para estabelecer tal conexão. Mesmo para casais, a
nacionalidade não tem nenhum valor em relação à conexão criada
entre homens e mulheres. Ser apenas humano já fornece uma
conexão suficiente.
O que nos conecta? Haverá uma conexão entre todas as coisas
vivas? Que ordens funcionam aí? Poderão tais ordens serem
reconhecidas através das constelações? Quando plantas e animais
são destruídos sem consideração ou motivo, ou exterminados por
lucro, então falta a atenção necessária, e a culpa é o
resultado. Será que nossos filhos, netos ou bisnetos estão
tomando essa culpa? E de que modo? (será que poderíamos
encontrar aí as causas para alergias que ocorrem mais e mais
frequentemente?) Até este momento, as ordens acima mencionadas
estão ainda ocultas e permanecem por descobrir. Mas talvez novas
portas se abrirão aqui também, e seremos capazes de ir mais
fundo nas profundezas daquilo que pode se mostrar a nós através
das constelações.
Traduzido do inglês do texto original extraído do site do Dr
Berthold Ulsamer, com permissão do autor.
Tradutor: Décio Fábio de Oliveira Júnior
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