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A paz começa na
alma: Conflitos étnicos e reconciliação
Bert Hellinger
na Forham University, 4 de Outubro de 2004
Texto traduzido por Décio Fábio de Oliveira Júnior com a
permissão expressa do Sr. Dan Booth Cohen, conforme o original
em inglês no site
http://www.hiddensolution.com/whatsnew.htm
A raiz do conflito étnico é uma "Boa consciência"
Primeira Demonstração
Observações sobre a primeira demonstração
Perguntas
Segunda Demonstração
Observações sobre a Segunda Demonstração
A raiz do conflito étnico é uma "Boa Consciência"
Qual é a origem dos conflitos étnicos ? Se você olhar para isto
bem de perto , você ficará surpreso ao perceber que na raiz de
todos estes grandes conflitos está uma "boa consciência". Todos
estes conflitos obtêm sua energia de uma boa consciência.
Nós somos ensinados desde a mais tenra infância , que nós temos
que seguir nossa consciência. Algumas pessoas chegam a dizer que
a consciência é a voz de Deus em nossa alma. Mas uma olhada bem
superficial na consciência no mostra que pessoas de diferentes
famílias e diferentes culturas têm diferentes consciências em
relação a nós. Muito frequentemente, seguindo sua própria boa
consciência elas expressarão diferentes valores, apresentarão
diferentes comportamentos e manterão diferentes atitudes do que
nós teríamos dentro de nossa própria família e nossa própria
cultura.
Um teste bem fácil para verificar isto: quando você vai até seu
pai, você tem uma consciência diferente do que quando você vai
até a sua mãe. Se você fica perto da mãe você se sente de má
consciência em relação a seu pai. Se você fica perto do pai você
se sente de má consciência em relação a sua mãe.
Assim, a consciência, na verdade, não nos diz o que é bom ou
mau. Ela nos diz o que nós temos de fazer de modo a pertencer a
um grupo particular ou a uma pessoa particular. A consciência
tem uma função básica: ela nos liga nossa família de origem,
especialmente a este grupo que é essencial para a nossa
sobrevivência. Deste modo, quando nós seguimos nossa
consciência, não é uma consciência pessoal, é a consciência de
nosso grupo. Se nós seguimos tal consciência, nós nos sentimos
seguros dentro de nosso próprio grupo.
Mas ao mesmo tempo que a consciência nos liga a nosso grupo, ela
nos separa de outro grupo. Assim, divisões, entre pessoas e
famílias e grupos maiores, vêm da boa consciência. Esta
consciência é um pré-requisito para a sobrevivência. Para nossa
sobrevivência e para a sobrevivência de nosso grupo.
Se há um inimigo de for a, ameaçando nosso grupo, a consciência
se torna muito activa e nos liga bem próximos a nosso grupo e
mobiliza a energia para lutar com os outros pelo bem da
sobrevivência de nosso próprio grupo. Se você olha para estes
conflitos, você vê que ambos os lados têm uma boa consciência.
Ambos os lados sentem que sua consciência é a voz de Deus. Sua
causa é algo sagrado. Isto é o motivo pelo qual os conflitos
entre grupos são defendidos como uma guerra santa. Sempre, uma
guerra santa. Muito estranho, hum?
A pergunta agora é: Nós podemos achar caminhos que podem superar
os limites de nossa própria boa consciência e incluir dentro de
nossas almas e nossos corações os valores de outras pessoas?
Então nós teremos de ter uma má consciência. Através de ter uma
má consciência nós podemos amar mais do que antes. Por causa
deste tipo de amor, que vem da boa consciência, diz ao mesmo
tempo , "Sim e não". O amor que leva à reconciliação seria o
amor que pode dizer "Sim" para todo mundo e para tudo.
Isto não é politicamente factível. Os líderes políticos tem de
seguir a consciência de seus grupos. Nós não podemos esperar
deles que cruzem as fronteiras de sua boa consciência. Nos
tempos recentes, há dois líderes políticos que fizeram isto, o
presidente Sadat do Egipto e o primeiro ministro Rabin de
Israel. Ambos foram mortos por seu próprio povo que agiu de boa
consciência, é claro. Superar as fronteiras de nosso próprio
grupo é perigoso. Nós temos que saber disto.
Uma vez que você seguiu sua consciência, você não mais pode ver
as outras pessoas. Voe nunca as vê. Elas são apenas "Os
inimigos, os outros, o outro grupo". Deste modo a paz começa
quando nós vemos as outras pessoas, nossos inimigos, como seres
humanos exactamente como nós somos.
Todos os esforços para servir à paz têm de ser feitos bem
devagar. Tem de começar na alma. Primeiro de tudo em nossa
própria alma e então nós podemos encontrar outros que se unem em
um certo movimento de paz. Isto pode alcançar momentum e ao
longo do tempo alcançar alguma coisa boa a serviço da paz.
Primeira Demonstração
Aqui, eu gostaria de demonstrar o que acontece se nós seguimos
nossa boa consciência e se nós vamos além do limite de nossa
consciência. Eu farei algo que pode ser muito radical. Eu
tomarei algumas pessoas para representar vítimas do Holocausto e
algumas pessoas para representar os assassinos do Holocausto.
Deixaremos que elas fiquem face-a-face. Nós olharemos o que
acontece se nós permitimos a elas olharem-se mutuamente.
Eu preciso de cinco representantes para as vítimas do
Holocausto. Alguém se dispõe? [Selecciona então os
representantes] Você fica aqui. Só fiquem de pé, lado a lado.
Então eu tomarei cinco representantes para os assassinos.
[Selecciona os representantes].
[Hellinger coloca a linha de vítimas de frente para uma linha de
agressores. Ele não dá nenhuma explicação adicional ou
instruções. Isto não é um psicodrama ou uma encenação. Os
representantes não falam nada. Após algum tempo, eles começam a
exibir reacções. Alguns começam a chorar, alguns se tornam
fracos e caem, alguns se viram, alguns se movem para perto dos
outros e alguns apenas ficam de pé, no lugar.
Hellinger permite o processo se desenvolver por cerca de 10
minutos. Então ele traz alguns representantes para cada lado,
que ficam atrás dos outros. Ele não diz a eles nada, mas à
medida que o processo se desenvolve eles podem ver os
representantes dos descendentes das vítimas e dos agressores.
Após algum tempo, eles também começam a reagir de vários modos.
O processo inteiro dura mais de 20 minutos sem nenhuma fala.
Lágrimas fluem livremente, dos representantes das vítimas , dos
agressores, dos descentes de dos observadores da audiência. Nós
vemos que muito lentamente, os membros das duas linhas originais
se misturaram uma com a outra. Muitos, mas não todos, se
abraçaram em pequenos grupos. Alguns deitaram no chão sozinhos.
Ninguém ficou imóvel.]
Eu acho que aqui eu posso interromper isto.
Observações sobre a primeira demonstração
Eu direi algo sobre o procedimento. Se nós não interferirmos com
qualquer julgamento ou intenções, então em uma constelação como
esta, os representantes são movidos por uma força mais profunda.
Isto é "a alma" em um sentido muito mais amplo do que nós
usualmente falamos sobre ela. Os movimentos básicos da alma são
sempre os mesmos. Eles unem o que foi antes separado. Você pode
ver isto muito lindamente.
Aqui alguma coisa muito importante aconteceu. Um dos agressores
não pode ir. Nós o vimos ficar de pé dom seus pulsos cerrados. O
jovem homem lá , obviamente, era um descendente de um agressor.
Nós pudemos ver isto. Quando o agressor virou-se para seu
descendente, o jovem homem veio e colocou sua mão no ombro do
velho homem. Isto foi o começo de um movimento onde ele poderia
se abrandar. O agressor não pode ficar brando a menos que ele
seja amado. Isto foi mostrado. Não há mudança a menos que os
agressores também sejam olhados como seres humanos que seguem
sua consciência assim como os outros o fazem. Isto precisa ser
reconhecido, que eles são chamados por um destino especial, como
outros também.
No final, nenhum grupo mais, apenas pessoas. Apenas pessoas
conectadas pelo amor e pelo profundo pesar que vocês puderam ver
aqui, pelo que aconteceu. A principal força que traz paz entre
pessoas e nações querelantes é um pesar compartilhado por aquilo
que aconteceu .
Eu quero apontar algo muito importante. Alguma coisa que está no
caminho da paz. Muitos daqueles que sofreram, ou que pertencem
ao grupo que sofreu muito, estão com raiva dos agressores. Eles
reprovam-nos. Eles não querem esquecer de nenhuma forma. O que
acontece ? Aqueles que rejeitam os agressores em sua alma se
tornam como eles. Subitamente, eles têm a energia dos agressores
e continuam o conflito de alguma forma a sua volta. Como a roda
que gira, mas é sempre a mesma, sem nenhuma solução. Além do
mais, aqueles que são reprovados são reforçados em sua agressão.
Assim, todas as acusações e todas as reclamações pelos
sobreviventes dos conflitos étnicos contra os agressores apenas
alcançam o propósito oposto ao qual almejam. Eles permanecem no
caminho da reconciliação.
Uma vez que nós compreendemos isto e permitimo-nos em nossas
almas desejar o bem a cada pessoa, mesmo aos agressores, mesmo
àqueles que cometeram injustiças contra nós, mesmo na vida
quotidiana, se nós aprendemos isto, nós crescemos. Se nós
adoptamos esta atitude nossa simples presença em uma dada
situação promoverá a reconciliação e a paz. Há duas sentenças
ditas por Jesus que explicam o que isto significa no final. Ele
disse, " Tenha clemência, como meu pai no Céu; ele faz o sol
nascer sobre os bons e os maus , igualmente. E Ele deixa a chuva
cair sobre os justos e injustos, igualmente." Esta é a paz de
Deus, realmente.
Perguntas
P: Houve um representante das vítimas que se moveu para longe
dos outros. Quanto mais longe ele caminhou para longe, mais ele
parecia colapsar. Enquanto isto, os representantes que se
aproximaram dos agressores permaneceram de pé e eventualmente se
moveram em harmonia com os outros. Eu me preocupo com o que
aconteceu com o representante da vítima que se afastou.
Hellinger: Eu primeiro direi algo sobre todo o processo. Cada
representante é um indivíduo que está sintonizado como alguma
coisa por si mesmo. Nós não podemos explicar seus movimentos.
Foi assim como foi, isto é tudo. E ainda, nós pudemos ver estes
movimentos revelar algo sobre as forças internas que influenciam
aqueles que tem experimentado contacto com o Holocausto.
Neste exemplo, nós podemos ver que muito frequentemente os
descendentes das vítimas do Holocausto querem morrer. Muitos
deles são atraídos para a morte. Aqui você pôde ver um exemplo.
Aqueles que são ousados o suficiente para encontrar os
agressores, estes tem força. Você pôde ver isto também. Muito
estranho, de fato. Isto é como é. Isto não foi planejado ou
imaginado de forma alguma. Isto não pode ser imaginado. Algo da
profundidade simplesmente surge, e vem à luz e nos é mostrado.
Nós só assistimos.
P: Os representantes não usam quaisquer palavras. O que , em
termos do procedimento, significa esta falta de diálogos ?
Hellinger: Estes movimentos só podem ser revelados sem o uso de
palavras. Só então as profundezas da alma se movem. Muito
frequentemente nós queremos desafiar ou questionar aquilo que
vemos porque nós temos em mente a ideia que isto deveria ser de
uma certa forma. Se nós ouvimos estas ideias, somos cortados da
conexão com estes movimentos profundos, imediatamente. Isto só
pode ser feito sem palavras. E isto mostra que não há
interferências de fora. Assim que usamos palavras, vocês são desconectados dos movimentos.
P: Você instrui os representantes para não falar?
Hellinger: Você viu, desde que eu não disse nada, eles não
disseram nada também.
P: Você usou a palavra "consciência" para descrever a
consciência baseada no pertencimento a um grupo particular que
frequentemente se vira , então, contra um outro grupo. Me parece
que há também uma consciência baseada na identificação com toda
a raça humana. Estas pessoas trabalham para a paz mundial. Pode
não existir uma consciência como esta? Um grupo comprometido de
pessoas que são amantes da paz e não se identificam com um grupo
religioso, nacional ou étnico particular, mas com a humanidade
como um todo?
Hellinger: A consciência tem a ver com pertencimento.
Pertencimento a um pequeno grupo ou à humanidade como um todo,
sintonizar-se com o mundo como um todo. A consciência pessoal é
sentida como culpada ou inocente; é como ela se mostra. Ela
dirige nossas acções e comportamentos por meio destes
sentimentos. Podemos também sentir o que é ficar em sintonia com
todas as pessoas. Estar em sintonia é percebido como um
sentimento de calma e centramento. Não estar em sintonia é
sentido como intranqüilidade. Se nós trabalhamos para a paz, e
nós somos muito calmos, confiamos no movimento maior do qual nós
somos uma parte, então nós nos sentimos muito calmos e
centrados. Então nós não temos nenhuma ansiedade. Tão logo as
pessoas se tornam ansiosas e desejosas de alcançar algo, elas
seguem sua consciência pessoal. Elas não estão em sintonia.
Quando nós estamos em sintonia como o todo, estamos centrados.
Nós confiamos que as coisas se desenvolverão no tempo devido;
nós não nos apressamos. Deste modo o teste é: estamos calmos ou
inquietos ?
Uma outra coisa a se notar é que quando você segue sua
consciência pessoal e se sente ligado a seu grupo, você se sente
conectado em uma relação muito íntima. Uma vez que você estiver
em sintonia com a humanidade, você perde esta intimidade. Você
está aberto ao amplo; você está conectado, mas não intimamente.
Há um preço a ser pago. Você se sente de certa forma sozinho,
ainda que conectado.
P: Como o pesar promove a reconciliação ? Além do sentimento de
pesar, que outros promovem a paz?
Hellinger: A vida está sempre se movendo para a frente. O pesar
é só por um curto tempo. Pela experiência do pesar [do luto],
algo do passado se completa. Então você se move para a frente.
Se nós carregamos nosso pesar e remorso connosco todo o tempo,
nós perdemos nossa própria vida. Na alma, se estamos em conexão
com aqueles com quem estivemos previamente em oposição, e
compartilhamos juntos o pesar, então podemos estar completos.
Então podemos nos mover para a frente com a vida, sem a
necessidade de vingar os erros do passado na próxima geração.
Muito frequentemente, as pessoas rejeitam algo em si mesmas.
Chamam isto de sua sombra, ou o que quer que seja. Nossa alma
contém uma imagem ou um reflexo da história de nossa família,
nossa cultura, nossa religião, nossa raça, nossa nacionalidade.
O que quer que seja que rejeitemos em nós mesmos, representa uma
pessoa rejeitada. Muitas doenças, por exemplo, são conexões
ocultas com uma pessoa excluída dentro de nosso sistema
familiar. Se esta pessoa excluída é tomada em nosso coração, a
doença pode ir. Muito frequentemente.
A reconciliação começa em nossa alma. Quando o que quer que seja
que rejeitamos, ou do qual temos vergonha é reconhecido e mesmo
amado, então nós podemos nos tornar mais completos e em paz.
Infelizmente, isto significa também que temos de deixar de lado
nossa boa consciência.
Segunda Demonstração
Hellinger coloca uma segunda demonstração. Dez vítimas do
Holocausto Armênio-Turco deitam-se no chão no centro do círculo.
Eles são margeados de cada lado por cinco representantes dos
descentes das vítimas armênias e cinco representantes dos
agressores turcos. Nenhuma instrução adicional é dada.
Após vinte minutos, muitos representantes se movem em grupos com
alguns de cada lado juntando-se para lamentar os mortos. Muitos
estão chorando; no final estes grupos começam a rir juntos.
Observações sobre a segunda demonstração
Olhando para esta constelação, nós podemos ver como é difícil
alcançar a reconciliação no final. Muito difícil. É muito
difícil alcançar isto em larga escala. Só é possível entre uns
poucos indivíduos. O principal obstáculo é que os descendentes
de ambos os lados estão ligados a suas consciências. Mesmo
agora, após tantos anos, eles estão ligados a suas consciências.
Há um importante aspecto a ser levado em consideração. Muitas
pessoas que sofreram muito, como os armênios, ou na América do
Sul, os índios, os incas ou os escravos nos Estados Unidos, e os
nativos americanos especialmente, eles estão ligados por aquilo
que aconteceu no passado. Sua energia é atraída do presente para
o passado. Há uma esperança secreta que algo que foi
terrivelmente mau no passado possa ser refeito e corrigido, até
mesmo desfeito totalmente. Este desejo de mudar o passado impede
os descendentes de olharem para frente.
Na Alemanha, nós frequentemente encontramos com israelenses para
discutir o Holocausto Judaico-Alemão. Eles nos dizem que nós
nunca devemos esquecer o que aconteceu. Eles dizem, "Nunca
esqueça." Mas quando você faz isto, nada pode acabar. Por
relembrar o passado, sempre repensando o que aconteceu, a
energia é removida da vida presente. O que acontece àqueles
descendentes que são admoestados a se lembrar ? Eles ficam com
raiva. Então, justamente o oposto daquilo que se deseja obter é
alcançado.
Na última demonstração, se os turcos que vivem hoje são forçados
a expressar remorso e arrependimento por terem matado os
armênios noventa anos atrás, eles se recusarão a fazê-lo e
ficarão resistentes e hostis. Eles não poderão ficar brandos. O
conflito continua e nunca poderá terminar.
Ano passado eu trabalhei na Flórida. Havia uma mulher no
workshop que disse que se sentia desconectada de seu corpo. Ela
sentia como se sua cabeça estivesse cortada do resto dela. Eu
soube que ela era uma inca peruana. Então eu pensei no rei inca
que foi decapitado pelos conquistadores espanhóis. Eu coloquei
alguns representantes do povo inca deitados no chão. Então eu
tomei um representante para o rei inca. Também coloquei três
representantes para os conquistadores espanhóis. Eu coloquei
esta mulher com eles. Após um momento, ela se moveu e uniu-se
aos mortos, especialmente ao rei inca. Ela queria revivê-lo. Mas
de fato, ele não podia ser ressuscitado. Ele apenas afundou mais
e mais profundamente. Quando a mulher viu que nada podia ser
feito, absolutamente nada, aí realmente acabou. Ela foi até os
representantes dos espanhóis e segurou a mão de um deles. Então
começou a chorar. Eles ficaram brandos.
No dia seguinte, ela me escreveu uma carta dizendo que ela era
uma descendente direta do último rei inca. Através desta
experiência, ficou claro para ela que qualquer tentativa de
reviver o passado priva a geração presente de seu futuro.
Em alguns dias eu estarei indo ao Canadá onde eu fui convidado
por um grupo de pessoas nativas a trabalhar com elas. Todos eles
perderam suas terras e costumes tradicionais e eles também vêem
que não há nenhum caminho para o futuro a menos que seja
permitido encerrar o passado.
Há muitos obstáculos que ficam no caminho dos indivíduos
deixarem o passado para trás. Um deles é a consciência, como eu
já disse. Outro é o desejo de justiça. Nós todos temos uma
premência para que algo tenha de ser equilibrado. Dar e tomar,
ganhar e perder tem de ser colocados em equilíbrio. Este é um
desejo forte e é muito útil para as relações humanas. Mas não é
útil de forma alguma quando nós tentamos forçar a justiça na
história. Assim, muitas guerras são iniciadas de modo a fazer
justiça para aqueles que já morreram ou punir os mortos que
cometeram crimes no passado. Isto nunca foi alcançado. Nunca!
Justiça, nessas circunstâncias, é uma grande ilusão. Isto está
no fundo de muitos conflitos. Para criar paz nós temos que
deixar de lado nosso desejo de justiça dirigido ao passado. De
outro modo, o conflito futuro é inevitável.
Justiça é uma preocupação só dos vivos. Os mortos, cujo destino
nós podemos querer vingar, não podem ser ajudados desta forma. A
busca por alcançar a justiça para aqueles que sofreram e
morreram nos dá o sentimento de que nós estamos fazendo a coisa
certa; isto nos deixa de boa consciência. Mas o efeito é
continuar uma luta sem fim.
Estes são alguns dos insights que vieram deste tipo de trabalho
que eu demonstrei. Como vocês viram, não há nenhuma influência
de fora. As camadas profundas da alma funcionam de uma forma
diferente de nossos desejos e de nossa consciência. Se nós
aprendemos a confiar nestes movimentos e vamos com eles,
alcançamos algo e deixamos muita coisa ir embora.
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