Primeiro workshop de pedagogia sistémica para uma melhor interacção nas escolas
Tornar visíveis as dinâmicas de uma estrutura escolar em crise e fornecer ferramentas para um trabalho de cooperação e harmonia dentro da hierarquia da instituição escolar. Os objectivos do primeiro workshop de pedagogia sistémica em Portugal, que decorre no próximo Sábado, entre as 15h e as 19h, no Espaço Psi, em Carcavelos, integram uma abordagem sistémica e fenomenológica que visa facilitar a interacção e possibilitar uma compreensão de um todo maior do que a soma das partes, dizem os responsáveis.
Com base no conceito de "Constelações Familiares", de Bert Hellinger, Paula Matos, Bernardo Ramirez e Maria Cardoso coordenam o primeiro encontro para elementos ligados à comunidade escolar.
O objectivo é levar os participantes a viver melhor com as suas funções, exigências e obstáculos ao nível da estrutura de ensino, ao mesmo tempo que despertam para a importância central do aluno. De acordo com os responsáveis, o ideal seria substituir o julgamento, a atribuição de culpa e a desresponsabilização, em que não são aproveitados os recursos positivos de ambas as partes, por uma atitude de compreensão e consciência global.
Ciência Hoje falou com Paula Matos, responsável pela formação das Constelações Familiares em Portugal.
Ciência Hoje - Quais são os objectivos deste workshop?
Paula Matos - Trabalho com a sistémica familiar já há dez anos em Portugal e essa abordagem também pode ser feita nas escolas, com o nome de pedadogia sistémica. O objectivo é integrar as relações aluno/professor e sociedade. A grande questão é olhar para o sistema de educação de forma mais abrangente, com um olhar sistémico, porque há vários sub-sistemas em acção: não é só o aluno e o professor que estão em acção, são também o sistema da família do aluno, do professora, da família do professor e o sistema escolar como instituição. Esta interacção também sofre a influência do momento da educação do país em que está inserida.
C. H. - Em termos práticos, quais as consequências destas abordagem?
P. M. - Pode melhorar o relacionamento entre alunos e professores, entre os docentes no geral, porque muitas vezes os problemas nas escolas têm que ver com conflitos entre docentes, entre os docentes e as hierarquias da instituição. Na área da clínica recebo docentes, pais e alunos e professores que se queixam todos de um mesmo problema, o mau relacionamento nas escolas. O que propomos é olhar para a educação de forma diferente, melhorando a qualidade das relações.
C. H. - Quais são os temas-chave desta formação?
P. M. - Vamos falar sobre a história da educação sistémica, sobre a origem da pedagogia sistémica com os trabalhos de Bert Hellinger, quais os pontos de vista sistémicos e epistemológicos utilizados. Vamos trazer a Portugal no próximo ano Marianne Franke, professora e especialista nesta área, que tem desenvolvido uma abordagem que combina a experiência na área escolar com a terapia familiar. Através de exercícios práticos vamos explicar como é que possível actuar dentro da estrutura escolar.
C. H. - Falam, por exemplo, de problemáticas como "bullying" ( violência sobre alguém incapaz de se defender)?
P.M. - Sim. O primeiro workshop vai ser uma introdução à pedagogia sistémica. Depois vamos ter uma programação organizada por temas para abranger situações como o baixo rendimento escolar, o défice de atenção nas aulas, a formação dos alunos e a integração num grupo.
C. H. - Esta abordagem abrange então várias áreas disciplinares...
P.M. - Por esse mesmo motivo o workshop destina-se a pessoas de áreas diferentes, ligadas à psicologia, sociologia, filosofia e até fisioterapeutas e a todos os profissionais que se interessem pela área da educação. No fundo toca todas as pessoas interessadas em colaborar com a educação, cada um com a sua experiência.
C.H. - Que leitura faz da situação da estrutura escolar em Portugal?
P.M. - É uma área que está em crise em três universos distintos – pais, alunos e professores. No próprio dia do workshop vai haver mais uma manifestação de professores, fala-se disso todos os dias. É o momento propício para arrancar com esta abordagem.
C.H. - De que deriva esta crise?
P.M. - Há uma falta de comunicação mas também uma alteração daquilo que é exigido aos professores. É pedido aos professores para assumirem uma posição na educação que antigamente não estava prevista. O professor era quem dava as bases do conhecimento e à família cabia a restante assistência e apoio. Acontece que os professores muitas vezes não estão para assumir esse outro papel que lhes é solicitado, uns têm motivação para isso e outros não, ou por razões contextuais ou mesmo por falta de conhecimento.
C.H. - Esta formação pode ajudar a uma melhor adaptação às novas exigências?
P.M. - A nossa intenção é que cada um possa fazer um momento de introspecção, olhar para si próprio e ver que recursos tem para lidar com aquilo que lhe é exigido e de que forma pode contribuir para a estrutura escolar.
Comentários
Isabel Leitão Silva, em 2010-02-08 às 11:37, disse:
Sou mãe de uma criança de 10 anos, a que já foi diagnosticada hiperactividade... será que a medicina convencional está sensibilizada?! p/ estas quetões?! não será bom fazer um tabalho em conjunto p/ o bem das nossas crianças de hoje, Homens de um amanha melhor, espero eu... Gostaria de aprender de conhecer sobre Pedagogia Sistemica p/ poder ajudar a minha filha, e outras crianças. Por razões economicas não me foi possivel frequentar nenhum curso. Tenho estado algumas vezes na clinica social, que tenho adorado. Agrdeço a todos os que têm propocionado momentos tão "magicos"
Maria josé sá, em 2008-03-03 às 16:01, disse:
O tema é de extremo intersse. Falo como professora e Enc. de Educação. Gostaria de participar na vossa iniciativa. desafio-vos a repetir o evento mas, no norte (Porto, Braga...)
Anibal Marramaque Matos, em 2008-02-29 às 16:51, disse:
Desafio-vos a fazer uma réplica na Zona Norte (por ex. Porto, pois sou "bairrista", mas não muito). Outra hipótese é o II workshop de pedagogia sistémica para uma melhor interacção nas escolas, ser cá. Os meus parabens pela abordagem tão oportuna, nesta altura, deste tema. Cumprimentos
António Vicente, em 2008-02-29 às 15:40, disse:
De facto, tudo se conjuga para transformar os professores em amas secas de crianças. Eu continuo a preferir ser professor, com ou sem qualquer-coisa-sistémica.
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